As birras, os Açores e os rapazinhos de São Bento

Quando era mais novo fazia muitas birras. Chorava muito quando ia com a minha mãe às lojas e ela não me dava brinquedos. Muitas vezes, dizia-lhe que o meu primo recebia sempre o dobro dos brinquedos que eu e, por isso, poderia estar a desenvolver um complexo de inferioridade. Raramente consegui levar água ao meu moinho com esta argumentação, mas de vez em quando lá vinha o “action figure”, ou o carrinho que eu queria.

Todas essas birras tinham uma razão de ser. Quer fosse sensibilizar o coração da mamã, quer fosse tentar envergonhá-la num local público para ver se me dava o que queria. Havia, claramente, uma estratégia por detrás de tudo aquilo e, à medida que fui envelhecendo, as estratégias de birra foram ficando mais sofisticadas.

Também o Governo decidiu fazer uma birra. Também por detrás da birra do Governo havia uma estratégia. Sócrates quis ver até onde poderia levar o duelo de forças com Cavaco em relação aos Açores. Como tanta coisa na nossa vida política, as maiores contestações surgem à volta de questões sem interesse nenhum – a relevância política e social do Estatuto do Açores é (quase) nula.

Mas, para Sócrates tratou-se de medir o seu poder. Sócrates conseguiu sair a ganhar do confronto com Cavaco. Por duas vezes o diploma foi vetado, uma das quais por Cavaco e com direito a comunicação ao país. O nosso PM não se importou muito com isso e foi em frente. Fez birra.

Mas, qual a estratégia de Sócrates? Por que motivo procurou objectivamente um diferendo com Belém? Para quê hostilizar o Presidente que tinha defendido a “cooperação estratégica” como sendo a plataforma de base à legislação e governação em Portugal?

Porque pode. Porque quis mostrar a Cavaco que ele (Sócrates) precisa tanto dele (Cavaco) como ele (Cavaco) precisa dele (Sócrates). Porque Sócrates não quer saber se o Presidente agora tem de ouvir a Assembleia regional se pretender a dissolução da mesma. Sócrates quis mostrar que manda e, se quiser, pode fazer Cavaco Silva engolir uns quantos sapos. E este deve ter custado.

A vontade clara de Sócrates em travar um braço-de-ferro com Cavaco também pode indiciar que o actual PM vai apoiar um outro candidato a Belém nas próximas eleições. Cavaco apoiou Soares para o segundo mandato deste. Muitos esperavam que Sócrates fizesse o mesmo, mas com base neste episódio esse cenário torna-se mais improvável.

Esse candidato pode ser Alegre, pode ser Gama. Pode ser quem tiver de ser, mas se o partido do Governo apoiar um outro candidato a Belém – que não o actual ocupante do Palácio – vai ser interessante ver qual o papel que Sócrates terá nessa campanha. Irá contestar Cavaco? Criticar o seu discurso austero? Dizer-se cansado dos “recados” que lhe vai deixando sempre que fala ao país?

E, no caso de uma reeleição de Cavaco – historicamente, o cenário mais provável – não deixará de ser muito interessante avaliar até onde vai a vontade de “cooperar” do Presidente. Esquecerá quaisquer ataques de Sócrates em nome do superior interesse nacional?

Já se consta que Cavaco vai pedir mais explicações sobre o Orçamento, e os vetos têm vindo a acumular nos últimos tempos. Será a resposta à birra do “menino” Sócrates? E, será esta a natureza da cooperação estratégica que nos espera para os próximos anos? A política nas mãos de rapazinhos.

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