Lagartos envergonhados

O Sporting sucumbiu ontem à maior derrota da sua história na Europa do futebol. No total, os leões perderam por 12-1 contra o Bayern Munique. Naturalmente, a equipa alemã é muito superior à formação orientada por Paulo Bento, mas a diferença registada no final da eliminatória é inacreditável e não espelha a verdadeira diferença entre ambas as equipas.

Podemos entender este resultado dentro de duas perspectivas essenciais: uma, intrínseca ao Sporting e a outra conjuntural e que diz respeito à globalidade do futebol português.

No caso do Sporting, o resultado de ontem é o píncaro de uma política de contínuo desinvestimento na equipa de futebol. Venda de mais-valias que não foram devidamente acauteladas e uma duvidosa política de gestão de recursos aliada à insistência num treinador ordinário e pouco exigente – noutras palavras, é barato e não levanta ondas.

O plantel do Sporting tem alguns bons jogadores, mas não os suficientes para se fazer uma grande equipa. A maioria deles são atletas medianos que jogam o suficiente para ganharem uns joguitos na Liga Portuguesa mas que não cumpre sequer os mínimos quando do outro lado estão os tubarões do futebol europeu.

Depois, aqueles que têm alguma qualidade, como Moutinho ou Veloso, não estão em Alvalade por sua vontade e enquanto um continua por lá relativamente calado mas inconformado, o outro está confortavelmente à espera da saída do clube, forçando esse cenário a toda a velocidade.

Entre os bons mas que querem sair e os medíocres que querem ficar e continuar a ganhar uns dinheiros, está Paulo Bento, um forte benfiquista que começou a sua carreira de treinador pelo telhado. De treinador dos juniores passou a treinador do Sporting. Assim se vê o critério da direcção do clube que nunca procurou o melhor para a equipa. Procurou sempre o mais barato.

Quem hoje acreditar que foram as duas Taças de Portugal conquistadas que garantiram 3 épocas e meia de Sporting a Paulo Bento está enganado. Foi o elevado passivo do clube aliado a uma política de contenção que fizeram de Paulo Bento o treinador ideal para o clube, que vão aguentando estas humilhações em nome de um bem superior: a liquidação das dívidas.

Este estado de passividade alastrou-se aos adeptos que, na sua maioria, se mostram estranhamente indiferentes a estes resultados e começam a ficar contentes em estar a quatro pontos do líder e em terceiro. Quanto menores forem as expectativas, menores são as queixas pelo fracasso. Os cinquenta adeptos que ontem esperaram a equipa no Estádio são prova dessa apatia. Noutros tempos, estariam centenas, se não mesmo milhares, de sócios e simpatizantes à espera do momento certo para dar conta do seu descontentamento.

O outro factor que ajuda a explicar esta situação é conjuntural. O futebol praticado em Portugal é estranhamente pouco competitivo. Os jogos são maus, a exigência reduzida e a bagunça directiva imensa. O nosso anedótico futebol não produz jogadores e treinadores que consigam competir lá fora. Nos últimos anos, há uma equipa do FC Porto que ganhou quase tudo o que havia para ganhar, uma do Sporting que perdeu um final da UEFA em casa e outra do Benfica que depois de eliminar o campeão  Europeu apenas caiu aos pés do Barça mágico de Ronaldinho e Deco.

De resto, têm sido anos de derrotas, humilhações e fracassos na Europa. O Porto levou 4 do Arsenal, o Benfica 5 do Olympiakos e o Sporting 12 do Bayern. Por tudo isto, a carreira europeia do Braga ganha maior importância e relevo, tal como a sua vitória na Taça Intertoto.

Equipas competitivas no nosso Portugal são uma raridade. Por isso, quando elas surgem é preciso reconhecer o seu mérito e dar-lhes o apoio de que necessitam para progredir. O Braga perdeu em Milão esta temporada, mas apenas no último minuto. O Sporting levou 7 em Munique. Dúvidas sobre qual a equipa mais competitiva?

No futebol, tal como nos negócios, Portugal deixou de ter um mercado competitivo, capaz de ombrear com os melhores. Nesta altura, contentamos em exportar os nossos recursos mais qualificados na esperança que os que por cá ficam consigam ir aguentando o barco. E é isso a nossa Liga. Um alegre barco cheio de náufragos alegres, à espera da chegada ao próximo porto para acabar a viagem. Até lá, vão animando a malta ao fim-de-semana. 

Esta entrada foi publicada em Desporto, Eclipses. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s