Reflexões sobre o Bloco Central

Em entrevista a Mário Crespo, Manuela Ferreira Leite deu a entender que estaria disponível para a formação de um Bloco Central em coligação com o PS de Sócrates. A afirmação da polémica foi esta: “eu sentir-me-ia confortável com qualquer solução em que eu acredite que a conjugação de esforços e, especialmente, a conjugação de interesses – interesses no sentido do País – são coincidentes”.

Logo após a SIC ter dado a notícia, a líder do PSD veio a público dizer que essa tinha sido uma interpretação abusiva das suas palavras e que o PSD não admite governar com o PS. Com o CDS a conversa é outra.

Mais do que discutir questões semânticas – apesar de me parecer relativamente óbvio que na entrevista Ferreira Leite abriu claramente as portas para um novo Bloco Central – aquilo que vale a pena discutir é o cenário de coligação das maiores forças políticas nacionais.

Cada vez mais parece evidente que Sócrates não vai conseguir a maioria absoluta. Cada vez mais é claro que Ferreira Leite não vai ganhar as eleições. Cada vez é mais óbvio que o CDS perde terreno para o Bloco e o PCP na corrida para uma terceira força política.

Neste cenário, de maioria relativa do PS e supremacia de BE e PCP no Parlamento, qual a melhor solução para o país? Um governo de coligação à esquerda poderá ser altamente prejudicial numa altura crucial para o desenvolvimento nacional. Em tempos de recessão e crise económica, ter comunistas mais ou menos ortodoxos no poder nunca é bom sinal.

Depois, o CDS não parece vir a fornecer uma alternativa que ofereça ao PS, em caso de coligação, estabilidade governativa. A não ser que Portas consiga convencer o eleitorado de centro-direita a votar no seu partido, parece cada vez mais evidente que os centristas não vão reunir o apelo necessário para persuadir Sócrates a sentar-se à mesa com Portas para discutir uma coligação.

Sobra o PSD de Ferreira Leite. O PSD, partido com sentido de Estado e que em tempos difíceis deve perguntar o que é melhor para o país. Colocando as vaidades de parte, aquilo que o PSD deveria colocar em cima da mesa é o interesse nacional e não as vaidades partidárias.

Por isso, as declarações inciais de Ferreira Leite eram de coragem. Assumindo as dificuldades que o país atravessa, sentindo claramente que não vai conseguir reunir as condições para ela própria liderar um Governo de maioria PSD (ou PSD/CDS), Ferreira Leite apresentava o PSD com sentido de Estado, o PSD com quem os portugueses podem contar para ajudar a tirar o país do buraco.

Mas não. Imediatamente depois das repercussões inciais das suas declarações se terem feito sentir, Ferreira Leite veio dizer que não era nada daquilo que queria dizer. Que nunca tinha dito que estava disposta a um Bloco Central e que não forma governo com Sócrates. A vaidade tomou conta do bom senso e do sentido de dever de Estado.

Sem uma maioria absoluta do PS de Sócrates, o cenário de maioria relativa é cada vez mais uma certeza. Um governo PS/BE/PCP, ou só com um destes auxiliares, seria desastroso para o país. E Sócrates e o PS sabem disso. Até Alegre sabe. O CDS não vai ser capaz de ser uma alternativa e só o PSD pode ajudar a criar condições para alguma estabilidade governativa num período particularmente difícil para o país. E, atenção, ainda há Cavaco. O Presidente pode ter uma palavra a dizer neste caso. Ou duas: Bloco Central. 

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6 thoughts on “Reflexões sobre o Bloco Central

  1. A propósito, tenho aqui um link que pode interessar-te: http://www.box.net/shared/2jt2rbhj3y. Condensa as várias sondagens sobre as legislativas publicadas até finais de Março.

    De acordo com os números da Eurosondagem de 31 de Março, o PS anda nos 39,6%, o PSD com 29,6% e o CDS-PP com 7%. A coligação mais natural, PSD/CDS-PP, totaliza 36,6% dos eleitores.

    Pode bastar um leve escorregão do Governo para que a coligação vença as eleições, em minoria, claro. Um ‘centrão’ poderá beneficiar, mais do que o país, o Bloco de Esquerda em 2013. E isso sim, preocupa-me.

  2. Pá, quanto as sondagens estou como o outro: prognósticos só no fim. Em 2001 nenhuma sondagem dava a vitória ao Santana em Lisboa.

    Sobre as coligações, muito sinceramente não me parece razoável supor que o partido vencedor (PS) não faça parte do executivo. Dito isso, olhando para esses valores repara que uma junção entre PS e CDS não só dá vitória, como maioria. A outra, de direita, nem uma coisa nem outra.

    Sobre o Bloco digo-te uma coisa: em momentos de tranquilidade, a tendência será sempre para descer nas urnas. É um partido que se porta bem quando tem uma ‘bandeira’ a que se apegar. Como em 2013 vamos andar a progredir que nem os tanques dos Aliados na II GM, eles vão perder terreno. Tendencialmente, será aproveitado pelo CDS, que voltaria a ser a 3ª potência partidária. Mas isso está muito longe. Preocupa-me muito mais 2009 do que 2013. Pelo menos enquanto estiver em 2009. Depois vemos.

  3. Tu muito sonhas… Só o PSD pode trazer estabilidade? e se o PSD não se coligar com o CDS e tiveres na mesma um governo apenas com maioria simples? Vai dar tudo ao mesmo. Em alturas destas conviria governar com maioria absoluta mas às vezes mais vale sozinho do que mal acompanhado… além de que ter as medidas governativas escrutinadas e negociadas com a oposição pode ser importante numa altura tão decisiva para o nosso país. Que mais não seja seria a democracia a funcionar em pleno, nada de “ditaduras” consentidas.

  4. Em primeiro lugar, não devias estar a estudar para ser advogado?

    Depois, eu não disse que um governo de maioria relativa seria melhor se fosse do PSD. Aliás, o cenário de vitória laranja está tão longe que nem penso nessa possibilidade.

    A hipótese que vale a pena discutir passa pelo debate em torno de uma eventual vitória de Sócrates, mas sem maioria absoluta. Que faz a seguir? Junta-se à esquerda, ao centro ou à direita? Ou governa sozinho, recorrendo a entendimentos pontuais, estilo Guterres & Campelo?

    Num cenário de recessão e de severa crise económica, o PS deveria juntar-se ao PSD e/ou ao CDS, os únicos partidos da oposição com vocação para ser Governo. Dá estabilidade e maior confiança ao eleitorado.

    Governar com maioria simples é um exercício políticamente divertido. Porém, para o Portugal de 2009 não é, de todo, aconselhável. A melhor alternativa é a segurança. E, queiramos ou não, a segurança vem da direita. Resta escolher qual.

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