Alegre, o triste

Já se passaram uns dias. Eu sei. Mas a vida não é só postar e só agora tenho tempo para dizer umas coisas acerca da decisão de Manuel Alegre, a voz incómoda do PS que se decidiu afastar da vida política activa.

Foram mais de dezoito meses de vai não vai, de sai do PS ou fica, de concorre em lista própria ou vai como deputado na lista socialista, junta ao BE ou aproxima ao PS, de desaparece ou assume candidatura a Belém em 2011.

Foram meses em que Sócrates ia ficando aborrecido com a voz do “senador da República”, disse Paulo Pedroso, chateado com a indecisão de Alegre e com o constante relembrar do tal milhão de votos que o poeta representa, ou representava por altura das presidenciais.

A espada que encostava Sócrates à parede era muito pouco aguçada. O PM estava tentado a reduzir Alegre à insignifcância que, muito provavelmente, ele representa politicamente. Porém, quando o fazia os seus boys eram lestos a falar no tal milhão de votos, como se Alegre fosse dono deles. Mas, pronto, Sócrates lá ia aturando Manel por causa desse milhão – e para sossegar a ala mais radical do PS.

Alegre, esse, vivia atormentado. Atormentado com a traição ao PS, e atormentado pelo esquecimento a que Sócrates o queria votar. Com medo de arriscar sozinho, mas sem medo de dar mostras públicas de verdadeira rebelião contra os socialistas, Alegre lá ia fazendo correr o seu tabu e provocando uma (apenas aparente) instabilidade no PS.

Com a sua decisão de não ir para a frente nem ficar atrás, Alegre dá um jeitão a Sócrates e coloca-se dentro da defesa dos seus interesses. Ele nunca quis avançar contra o PS, porque sabe que aquele milhão de votos há muito que já desapareceu e qualquer tentativa de descolagem do partido apenas o reduziria à sua relativa irrelevância num quadro político tradicional.

E, saindo da Assembleia começa a preparar a candidatura a Belém, apoiado pelos socialistas. Alegre cala-se em função de interesses e ambições pessoais. Não passou a concordar com a política de Sócrates, nem com a forma como este tem gerido o PS. Mas, ele sabe muito bem  que sem a esquerda não tem hipóteses de derrotar Cavaco e que o milhão de votos das últimas presidenciais devem-se, sobretudo, ao facto de a esquerda se ter apresentado estilhaçada, por Soares ter sido o candidato socialista e pela pena popular que todo o cenário motivou.

Agora, com o PS e o BE – dificilmente conseguirá dizer que não a Alegre depois das cenas dos congressos da Esquerda e afins – Alegre tem tudo para ser um opositor temível para Cavaco, provavelmente o PR que melhor personifica os deveres e responsabilidades de um Presidente da República em Portugal. E, para isso, apenas teve de colocar os interesses pessoais antes das suas convicções sociais e políticas. Afinal, aquilo que qualquer homem de política tem de estar disposto a fazer. Mesmo um socialista. Principalmente um do século XXI.

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