A direita é fixe

Olhando para os resultados das eleições para o Parlamento Europeu há algumas conclusões a tirar: a primeira é que os dois partidos de direita em Portugal estão bastante longe de estarem mortos; a segunda é que o Governo de Sócrates está claramente fragilizado; terceiro e último, mas não menos significativo, o espectro do Bloco Central ficou mais longe.

Por partes. A vitória do PSD e a subida do CDS mostram que o eleitorado de direita existe e, quando devidamente mobilizado, aparece nas urnas. Em comparação com as eleições de 2004, acto a que PSD e CDS concorreram em coligação, o PSD faz dez pontos a mais e o CDS tem o seu melhor resultado de sempre em eleições europeias.

Tão importante quanto isso, ambos os partidos fizeram bastante melhor do que o previsto pelas sondagens. Aliás, a direita costuma surgir bastante mal tratada nas sondagens para quaisquer eleições. Por esse facto, deverão servir estes resultados também para os centros de sondagens repensarem a forma como conduzem os seus estudos. Os resultados do CDS, que nas sondagens não saía dos 3 por cento, são bem ilustradores dessa necessidade de voltar a pensar o método usado para o cálculo dessas mesmas sondagens.

Depois, aquilo que pode ter sido o fim de um ciclo para Sócrates. A escolha de Vital Moreira acabou por se revelar falhada e o envolvimento directo de Sócrates pode mesmo ter evitado um resultado pior. A meros três meses das legislativas, não só a maioria absoluta de 2005 parece cada vez mais indefensável, como a própria vitória socialista é claramente discutível.

Da noite para o dia, Manuela Ferreira Leite e o seu PSD sóbrio e rígido são vistos pelos eleitores como alternativas viáveis de Governo. A escolha de Rangel, critica no início, acabou por se revelar certeira, tendo o candidato carregado o peso do partido quase sozinho e, mesmo assim, garantido a vitória. Sócrates tem de estudar a mensagem que os portugueses lhe enviaram pelas urnas. O fruto dessa reflexão será algo a conhecer nos próximos dias.

Por fim, a fragmentação do eleitorado tem como consequência primeira o fim do mito do Bloco Central. Com tamanha dispersão nas intenções de voto, não faz sentido olhar para uma coligação entre PS e PSD como única forma de garantir uma maioria de governo. Por exemplo, resultados de PSD e CDS somados dão quase a maioria absoluta. O Bloco Central perde espaço e  terreno, enquanto que uma nova AD pode ganhar espaço.

Naturalmente, estas são extrapolações feitas a partir de um acto eleitoral que contou com mais de 60% de abstenção e em que, no fundo, aquilo que estava em causa era a Europa e um cartão amarelo ao Governo – convém aqui notar a incapacidade profunda dos políticos em sensibilizar o cidadão para a importância destas eleições. Importante será, agora, perceber se o eleitorado mantém a tendência de voto contra o PS nas legislativas que se aproximam.

P.S.: É capaz de estar na hora de tornar o voto pela internet possível. Por exemplo, para quem está recenseado em Braga e trabalha em Lisboa a única alternativa é ir até ao Minho votar. Assim, o voto fica caro. Em tempos de banda larga, de Magalhães, de recenseamento automático  e demais equipamentos electrónicos, convém pensar numa solução a esse nível para o voto.

Esta entrada foi publicada em Política, Sociedade. ligação permanente.

4 respostas a A direita é fixe

  1. Josué Lopes diz:

    Esqueceste-te de mencionar que quem mais subiu foram os partidos de esquerda e que o CDS, apesar da subida em relação às sondagens, é cada vez mais um partido do táxi… Isto sem esquecer que a esquerda no seu conjunto continua a ser a facção mais votada.
    O PS foi derrotado, é verdade. Mas também é verdade que a derrota foi-lhe infligida pelos partidos de esquerda e não pelo PSD, os números e a evolução do eleitorado comprovam-no.
    No entanto, o mais importante a assinalar não é a vitória PSD/derrota PS, mas sim a abstenção de +60% que vem demonstrar o total desinteresse dos eleitores pelas eleições europeias. Mobilizar o eleitorado, isso nenhum partido conseguiu…

  2. Por um voto se ganha, por um voto se perde. Dizer que o PSD não foi o vencedor da noite, é ignorar qual foi o partido que teve mais votos.

    O Bloco teve uma votação interessante, resta saber se consegue manter em eleições de outra natureza, como as legislativas ou as autárquicas. Tal como no caso do CDS, se esta votação não tiver seguimento em eleições futuras, tratou-se apenas de uma andorinha e não da primavera.

    Sobre a esquerda no seu todo ser a mais votada, podemos fazer um exercício engraçado: PCP e BE já disseram que nunca se juntariam ao neo-liberal PS. CDS e PSD são parceiros naturais. Em termos práticos, quem tem mais votos? A direita ou a esquerda?

  3. Josué Lopes diz:

    Eu não disse que o PSD não ganhou. O facto é que este foi claramente um voto de protesto contra o governo, voto esse que os portugueses não confiaram ao PSD mas sim nos restantes partidos de esquerda. A evolução da percentagem de votos no PSD demonstra isso quando se vê que este alcançou um resultado à volta dos 30%, número muito próximo do atribuido quer nas sondagens para as europeias quer naquelas que vão sendo feitas para as legislativas. O PSD não passou de vinte e muitos pontos para trinta e muitos/quarenta, passou de vinte e muitos para trinta e poucos. Não me passa pela cabeça dizer que não foi uma vitória do PSD mas antes de o ser, é uma derrota do PS que viu o seu eleitorado protestar na forma do voto nos restantes partidos à esquerda. Acho é que é um exercicio irrealista e propagandista tentar fazer passar a ideia de que o PSD teve uma grande vitória e que dentro do partido já está tudo bem, que a Manela já é a maior e que venham as legislativas.
    O maior inimigo do PSD é ele próprio, não o PS (que até vai ajudando com as trapalhadas em que se mete). Basta ver o que se passou na noite das eleições: durante a campanha o Rangel e a Manela percorreram o país sozinhos sem o apoio de nenhuma figura do partido, mas chegou o momento da vitória e lá apareceu na sede o Santana e o Passos Coelho para se aproveitarem do momento… O PSD ganhou? Com certeza. O mérito é seu? Nem por isso.

  4. Engraçado que não recusas duas ideias importantes: 1 – Extrapolando na medida do possível estes resultados para a realidade nas legislativas, as forças mais próximas de São Bento são CDS e PSD.

    2 – Sendo legítimo acreditar-se que com a diminuição da abstenção a votação no PS tenderá a aumentar, não devemos também ser ingénuos ao ponto de recusarmos a ideia de que o voto de protesto também caia à direita – não apenas nos pratos de BE e PCP. Dependendo de como correr a campanha, o PSD pode ainda aproveitar o descontentamento popular e, quase sem saber como, ganhar as legislativas. Mas, daqui até ainda vai um pulo. Para já, fica o óbvio e o factual: PSD ganhou as Europeias.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s