No Benfica como na Venezuela

As eleições no Benfica estão feridas de morte. Já não valem de nada. No meio de tanta incompetência, estupidez, abuso de poder e desconsideração pelas instâncias legais, pouco ou nada resta para salvar um acto que se pretendia digno.

Luís Filipe Vieira foi irresponsável. Pensando que derrubava o tapete à oposição, e num acto ao nível do pior Hugo Chávez, decidiu antecipar as eleições. Mal aconselhado, esqueceu ou ignorou que os estatutos do clube – precisamente para evitar este tipo de tomadas de posição – impedem que os órgãos sociais demissionários se voltem a candidatar.

Bruno Carvalho, oportunista, viu neste erro de cálculo uma porta escancarada para entrar na sala da presidência do Estádio da Luz. Em circunstâncias normais, e mesmo em algumas anormais, Carvalho nunca conseguiria derrotar Luís Filipe Vieira. Mais, mesmo num duelo entre Moniz e Vieira a vitória do primeiro não era clara.

Não sendo um “yes man” de Vieira, não me esqueço de como era o Benfica antes dele chegar. A nossa defesa tinha nomes como Rojas, Escalona, Dudic ou Paulo Madeira. O meio campo e o ataque tinham em Sabry e Calado as grandes referências. Não tínhamos património, ninguém vendia um jogador ao Benfica – Van Hooijdonk foi quase recambiado para o Vitesse porque o dinheiro não entrava, algo que sucedeu a Rushveldt – e o clube andava por aí aos trambolhões. E ficámos em sexto.

Com Vieira, temos um complexo desportivo de respeito, um centro de estágios, poder na banca e capacidade para atrair jogadores que, embora não sendo de primeira linha na Europa, são estrelas na nossa liga. Juntar Aimar e Saviola, por exemplo, era o sonho de muito boa gente no início do século.

Contudo, faltam títulos. O clube vive abafado e consternado pela ausência de títulos. Com Vieira, o Benfica já ganhou uma vez todos os troféus em disputa e alcançou por duas vezes os quartos-de-final de provas europeias – Champions, com Koeman, e Uefa, com Fernando Santos. Mas é pouco. Muito pouco.

Não há tempo para pensar nem para reflectir. A vontade de ganhar ultrapassa a racionalidade e o bom senso. Quique foi contratado para um projecto, mas a meio do ano já não se queria projecto nenhum. Queria-se o título. Jesus veio para isso. Veio para ganhar o campeonato e chegar longe na Europa.

Por isso, mesmo que Vieira ganhe estas eleições, que de democráticas terão muito pouco – principalmente depois do Tribunal ter aconselhado a Assembleia-Geral a eliminar a Lista A do acto eleitoral, sugestão rapidamente ignorada por Manuel Vilarinho –, só a vitória nas quatro linhas o pode salvar. Se em Outubro as coisas tiverem a correr mal, Vieira pode não chegar a Maio. E o clube pode ter de ir novamente a votos. Quem ganha com isto, não sei. Sei, e tenho a certeza disso, que quem não ganha é o Benfica.

E, já que falei no mês de Maio, permito-me ao seguinte reparo: não faz sentido as eleições serem em Julho, muito menos em Outubro. Quando falamos sobre uma instituição desportivo, não parece mais interessante que as eleições ocorram sempre no final da época, para a nova direcção preparar a temporada vindoura?

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