Quando a máquina fica pesada demais

O jornal “Público” é o melhor diário português. Encontra-se num patamar incomparavelmente superior a outros títulos como o “24 Horas”, “Correio da Manhã” e “Jornal de Notícias” e é claramente melhor do que o seu concorrente mais directo, o “Diário de Notícias”. Por não ser um semanário não o vou comparar a “Expresso” e “Sol” nem ao “i” jornal que cada vez mais é uma revista – de referência – diária em formato de jornal.

O Público é o melhor porque tem os melhores profissionais, os melhores cronistas, consegue as melhores histórias e tem o melhor grafismo. Apresenta novas perspectivas sobre assuntos que julgávamos terem apenas uma dimensão e não tem medo de suscitar o debate e a polémica, nem tem medo em “provocar” os agentes no poder.

Porém, o Público é também um produto que dá prejuízo desde o primeiro dia. De acordo com as informações que circulam, o jornal do grupo Sonae nunca apresentou um resultado trimestral, semestral ou anual positivo. A mais-valia do jornal não era a sua rentabilidade económica, mas a capacidade de colocar o grupo de Belmiro de Azevedo no jornalismo e logo com um título de referência que, como todas as referências, é adquirido apenas pelas classes mais altas.

Em circunstâncias normais, essa publicidade indirecta que o Público faz ao seu patrão bastaria para o manter em circulação sem quaisquer problemas. No entanto, num período de recessão global e de crise geral nos média leva os grupos a repensar as suas estratégias. Há meses tivemos o caso do grupo Controlinveste que teve de despedir funcionários para manter os títulos abertos. Esta semana foi a vez do Público ter de reduzir salários sob pena de um processo de despedimento colectivo.

Numa altura em que a informação é mais barata, gigantes como o Público sofrem sempre as consequências. O site do jornal é o mais visitado entre os generalistas, mas o que traduz isso em termos de capital para o grupo? O facto é que as vendas têm caído e a disponibilização da informação na internet torna o acto de compra de um jornal – seja ele qual for – menos prioritário.

As gerações mais novas já fazem as contas: para quê pagar 1€ por um jornal que mais cedo ou mais tarde vai para a reciclagem se posso ir à net de borla? A compra do jornal fica para ocasiões especiais como o domingo, ou no caso do Público a edição de sexta-feira. Mas fica-se por aí.

Num período de crise consegue sobreviver um jornal que dá prejuízo ao seu dono desde o primeiro dia? Consegue se o dono for Belmiro de Azevedo. Mas não fica incólume a uma profunda redução salarial que vai atenuar o problema, mas não o resolve. O Público continuará a ser uma máquina demasiado pesada, demasiado cara.

Como todos os jornais por esse Mundo fora, o Público passa por dificuldades. E, neste caso, não é a sua qualidade intrínseca que o vai salvar. O jornal precisa de mais, precisa de vender mais, precisa de mais anunciantes, não precisará de tantos jornalistas, porventura. Debaixo da lógica do euro, quem manda vai ter de tomar a decisão de manter um jornal de referência e que dá bom ‘nome’ ao grupo, ou fechar um produto que nunca deu rentabilidade financeira, que emprega demasiada gente com demasiados salários acima da fasquia do razoável.

Nesta primeira ronda optou-se por um administrar um analgésico ao doente. A ver vamos se ele sai do coma ou se a máquina vai ser desligada. Eu gostava que ele acordasse. Mas que acordasse com condições para se manter de pé e não passar a viver dependente dos analgésicos.

Esta entrada foi publicada em Sociedade. ligação permanente.

Uma resposta a Quando a máquina fica pesada demais

  1. PR diz:

    O melhor diário é, de longe, o económico…

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