O dia depois do final da cooperação estratégica

Cavaco Silva queria ser um Presidente cooperante. Figura de respeito de um campo político oposto ao do actual Governo, o antigo primeiro-ministro queria ser uma força de desbloqueio, uma figura de proa rumo ao desenvolvimento do país. 

Cavaco queria, mas não o deixaram. É pelo menos essa a leitura que se pode fazer do discurso de ontem do Presidente da República, onde o chefe-de-Estado acusa directamente o PS de o ter envolvido na campanha e de ter atirado areia para os olhos dos eleitores, fugindo assim aos temas mais importantes – e, como que por uma inércia em cadeia, contagiando toda a oposição e rebaixando o nível e a qualidade do debate.

O PS, naturalmente, já veio repudiar todas as insinuações de Belém. Dizem que não tiveram nada a ver com o caso e lamentam as declarações do Presidente. Sócrates disse hoje que não queria dizer nada que desgastasse ainda mais as instituições mais altas do Estado. Não queria dizer, mas o seu silêncio – como o de Cavaco antes – diz tudo.

A relação entre Sócrates e Silva azedou definitvamente e não há volta a dar-lhe. A situação do país é difícil e o que menos interessava era um desentendimento entre a Presidência da República e São Bento, ainda para mais numa altura em que os socialistas se preparam para formar um governo com maioria minoritária no parlamento.

Nos próximos tempos a opinião pública vai acompanhar de perto esta situação. No parlamento, o PS pode sentir-se (erradamente) inclinado para procurar entendimentos à esquerda, quando a razão e a moderação estão do outro lado. Na Presidência, Cavaco pode sentir-se tentado a dificultar a vida a Sócrates e amigos. Talvez não o faça, já que faz parte do grupo dos moderados e daqueles que colocam o interesse nacional acima de tudo.

Mesmo assim, Cavaco com o seu silêncio de Verão complicou umas contas que já pareciam feitas: a reeleição em 2010.

Fica aqui a ligação para o discurso, em texto e vídeo, do Presidente.

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5 respostas a O dia depois do final da cooperação estratégica

  1. RPR diz:

    «Cavaco pode sentir-se tentado a dificultar a vida a Sócrates e amigos. Talvez não o faça, já que faz parte do grupo dos moderados e daqueles que colocam o interesse nacional acima de tudo.

    Também eu sinto algum apreço diferente por Cavaco, mas não sejamos taxativos a ponto de o santificar e deixar de parte o cepticismo. Aliás, para líder que se diz e quer apolítico, o Cavaco ontem até não esteve nada mal. O que umas décadas na política fazem…

  2. Essa parte de ter dificultado a reeleição é muito vaga. Quem é que o vai tirar de lá? O Soares que está a ficar xoné ou o idiota do Guterres? Não me parece…

  3. Josué Lopes diz:

    Pode tirá-lo o facto de muito boa gente do PSD não lhe perdoar a “traição” de não ter falado antes das eleições legislativas e, por conseguinte, não o apoiar. Para tal basta que o próximo lider do PSD não seja “cavaquista”.

    Quanto a possiveis adversários, convém não esquecer que, desta vez, o candidato da Esquerda será apenas um: Manuel Alegre. Não só já fez “olhinhos” ao apoio do BE como, ao não fazer parte das listas do PS e tendo apoiado Sócrates na campanha, garantiu também o apoio do PS.

    A re-eleição de Cavaco é provável mas, dada a confusão em que se meteu, não é tão certa quanto isso.

    É que nem parece uma atitude de quem já anda nisto há tantos anos…

  4. Regra geral, a reeleição do PR é uma formalidade – a história confirma-o. Contudo, o ‘ódio’ da esquerda ao actual Presidente é tal que a ideia vai ser tentar derrotá-lo nas próximas eleições, promovendo uma candidatura a sério – e não um ‘Ferreira do Amaral’.

    Mais do que isso, Cavaco percebeu que esteve mal na gestão de todo este processo. Disse-o no discurso. Disse que percebia que toda esta situação tivesse “custos pessoais” para ele.

    Em relação à responsabilidade do PR, fruto de uma moderação e ponderação que já se lhe conhecem desde os tempos de liderança do PPD-PSD, não se procurou santificar ninguém. Simplesmente, o estilo de Cavaco permite adivinhar que em primeiro lugar ele vai colocar o país e depois as divergências que, nesta altura, são inegáveis. Não me parece que se vá armar em Soares e dificultar, só porque sim, a vida ao Socas.

    E hoje há encontro secreto em Belém. O que sairá dali?

  5. RPR diz:

    O Mário Soares encarrega-se de alardear a sua boçalidade. O Cavaco é, pelo menos nesse aspecto, ponderado. Mas as aparências podem iludir. Daí eu ter falado de cepticismo.

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