A educação é cara? Experimentem a ignorância

Requer menos investimento inicial do que o resgate dos bancos e pode providenciar ganhos absolutamente fenomenais. O mais recente relatório da OCDE relacionado com a aposta na educação mostra como um investimento na área pode potenciar o crescimento da riqueza dos países nos próximos 80 anos. Aceitando os padrões de crescimento tradicionais de cada país-membro nas últimas décadas, e assumindo o papel que a educação tem tido nesse crescimento, os investigadores chegaram a conclusões que mostram que mais do que medidas de curto e médio alcance, o ideal para as Nações é o reforço do investimento na formação dos cidadãos.

O relatório recorre aos mais recentes modelos de crescimento económico para relacionar aptdiões cognitivas e crescimento económico. A conclusão mais premente do estudo mostra que mesmo o ganho mais minimalista na aposta formativa pode ter um impacto importante em futuros desempenhos económicos. Não descurando as medidas de curto prazo, nomeadamente aquelas que têm servido para combater a crise internacional, a sugestão dos cientistas é que os Governos comecem a apostar cada vez mais no reforço da educação.

O país que serve de exemplo no estudo é a Finlândia, a nação que, pelos padrões da OCDE, medidos pelos indicadores do Programme for Internationa Sudent Assessment (PISA), tem o melhor sistema educativo do Mundo. O relatório faz também uma menção especial à Polónia, o Estado que mais progrediu na tabela entre 200 e 2006 e que nesse período melhorou a sua performance em 29 pontos PISA.

Vamos aos números. Assumindo que os modelos de crescimento económico não sofrerão alterações estruturantes, o relatório da OCDE assume três grandes cenários: ganhos de 25 pontos PISA, aproximação de todos os países do nível actual da Finlândia e trazer todos os Estados para uma performance total de 400 pontos PISA. A realidade é sempre analisada em 80 anos, ou seja, entre 2010 e 2090 e pressupõe que as novas medidas na educação começam a ser sentidas pelas gerações nascidas depois de 2010. Em todos os casos, a organização concede um período de 20 anos para os Estados concluírem as reformas necessárias.

No cenário de incremento em 25 pontos PISA da performance educativa, vemos que os ganhos financeiros começam a ser bem visíveis no momento em que a geração de 2010 começa a ser a força dominante no mercado de trabalho. Em 2042 o PIB da OCDE já seria 3% superior ao que seria caso não houvesse qualquer melhoria na formação. Em 2090, o último ano esperado de vida para alguém nascido em 2010, o PIB da OCDE já seria 25% superior ao registado em 2010 e isto apenas com ganhos de 25 pontos PISA. No intervalo de confiança projectado pelos investigadores, vemos que no pior dos cenários esse crescimento seria de apenas 16% do PIB no conjunto da OCDE e que no melhor caso os ganhos ascendem a 60% do PIB,

Em termos totais, o PIB da OCDE ascenderia a 114 930 mil milhões de dólares. Individualmente, os Estados Unidos seriam a nação que mais teria a ganhar com estas novas medidas, com lucros de 40 647 biliões de dólares, um valor que facilmente cobre os gastos da mais recente recessão, por exemplo. O caso português, naturalmente, implica menores ganhos financeiros imediatos, com um impacto de 680 mil milhões de dólares até 2090 no caso de uma melhoria do sistema educativo correspondente a ganhos de 25 pontos PISA. Recordo que entre 2000 e 2006 a Polónia cresceu 29 pontos PISA.

Mais uma vez, estes números assumem que a importância do conhecimento para o crescimento económico não altera, embora o mais razoável será sempre esperar que as aptidões cognitivas sejam cada vez mais importantes no comportamento económico dos Estados. Depois, os efeitos do conhecimento sobre a economia são calculados numa comparação com a forma como o mercado de trabalho tem absorvido e aproveitado as capacidades cognitivas da força de trabalho.

O segundo caso de análise assume que todos os países crescem para um nível de ensino idêntico ao registado pela Finlândia. E neste caso é interessante ressalvar que a razão pela qual no quadro anterior os ganhos da Finlândia aparecem atrás dos de Portugal é que os finlandeses já partem numa posição superior à dos restantes parceiros e, por isso, a margem de crescimento é inferior à dos outros países.

A Finlândia é o país onde os alunos têm melhores resultados nos testes PISA. Os números sáo impressionantes: a média dos resultados dos alunos finlandeses nas disciplinas de ciência e matemática é de 546 pontos PISA. Trazer todos os países para este patamar de excelência implicaria reformas e alterações económicas variáveis, sendo que a Finlândia não precisaria de mudar nada e, consequentemente, também não teria muito mais a ganhar. Por outro lado, países como o México e a Turquia teriam de dar voltas atrás de voltas para chegar ao nível finlandês.

Tal como em todas as comparações feitas, os investigadores da OCDE prevêem que a conclusão destas reformas seja feita em 20 anos, ou seja, que até 2030 os sistemas educativos do espaço da OCDE estivessem ao nível da Finlândia, o que é mais ou menos fácil consoante a posição na grelha de partida. Neste cenário, os ganhos da OCDE seriam de 260 biliões de dólares, ou seja, seis vezes mais do que o conjunto dos PIBs dos países-membros da organização.

Os Estados Unidos, reflectindo a sua vastidão territorial mas também o seu actual atraso face à Finlândia, de cerca de 50 por cento, teriam a ganhar 103 73 biliões de dólares, números absolutamente extraordinários e que se traduzem em 40 por cento dos ganhos totais na OCDE.

O impacto de trazer a educação portuguesa para o nível da Finlândia até 2090, cumprindo a esperança de vida de alguém nascido em 2010, seria de 2 588 biliões de dólares, um ganho de mais de 1000% por comparação com PIB actual. Portugal está 81.7 pontos PISA atrás da Finlândia.

O terceiro cenário reflecte ganhos menos volumosos e, ao contrário dos 564 pontos de média finlandesa, prevê que todos os países alcancem um nível mínimo de 400 pontos nos testes PISA, visto como o mínimo admissível. O Canadá, por exemplo, apenas registaria uma ganho de 185% do PIB nesse período, um crescimento mediano, mas em seis países da OCDE o PIB cresceria 5 vezes mais do que o seu valor actual – neste lote está Portugal.

Fazendo a mesma projecção a 90 anos, os ganhos são inferiores aos registados no caso anterior mas nada desprezáveis: no seu todo, a OCDE ganharia 193 301 biliões de dólares, com os Estados Unidos à cabeça com lucros directos de 72 101 biliões de dólares, um valor que corresponde a 475 por cento do PIB actual e que dá uma ideia da riqueza que o país poderia criar se tivesse um nível de educação no padrão mínimo aceitável.

Portugal também ganha bastante. Neste cenário em que os resultados dos testes PISA são, em média, 400 pontos, os lucros financeiros de Portugal com a aposta nas competências cognitivas de pessoas com melhor formação é de 1 545 biliões de dólares, ou seja, mais 608%do que o PIB actual. Em termos médios, todos os países teriam de crescer 0,7% todos os anos para alcançar este número.

Este relatório não é um manual de reforma educativa. É um estudo sobre o impacto que o melhoramento das capacidades cognitivas tem na performance económica dos Estados. Com base naquilo que a história tem dito a este nível, a mensagem que passa é que existem ganhos formidáveis a ter com o investimento na educação.

O relatório não avança com medidas precisas – o mais próximo que está disso é sugerir a cópia do modelo finlandês – mas alerta para os perigos da inacção e da estagnação na promoção e reforço da educação. É evidente que há incerteza nestas projecções onde, por exemplo, o crescimento económico é mapeado com base nos dados verificados entre 1960 e 2000 e extrapolados para um cenário de noventa anos. Claro que há sempre imprevisíveis, mas não deixa de fazer sentido argumentar que o peso da educação na economia tende a aumentar e não a diminuir.

Os investigadores alertam ainda para a necessidade de este investimento na educação pretender ser mais qualitativo, o que permite entender que não basta atirar dinheiro para as pastas educativas. É importante e fundamental investir bem o dinheiro que existe para a educação e não despejar dólares ou euros nas escolas. Critério, bom senso e organização.

Recusar o melhoramente das instituições académicas é dizer que não é possível melhorar o actual estado de coisas. E essa recusa significa a derrota do conhecimento e a vitória da ignorância.

Esta entrada foi publicada em Eclipses, Sociedade. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s