Um trabalhinho na TAP é que era…

O presidente da TAP recebeu em 2009 quase 625 mil euros entre remuneração fixa, prémios e outros pagamentos. O português que aufira o salário médio em Portugal (cerca de 755 euros) demoraria 55,7 anos para ganhar o mesmo que o presidente da TAP ganha num ano– cerca de 420 mil euros.

O caso na Caixa Geral de Depósitos é semelhante. O presidente do banco do Estado aufere por ano 371 mil euros, à volta de 30 mil euros por mês. Com os prémios de gestão e de resultados, levou para casa em 2009 pouco mais de 560 mil euros. O Vice-presidente recebeu quase 559 mil euros. Barack Obama ganha 291 mil euros por ano.

Estes são os salários dos gestores de topo de apenas duas das empresas públicas auditadas pelo CDS no levantamento que o partido fez das remunerações dos gestores públicos.

Olhando para estes números não me esqueço que é muito fácil criticar os altos vencimentos destes gestores, mas que acaba sempre por ser complicado contratar profissionais de topo por menos dinheiro. Quem deixaria uma companhia aérea para vir para a TAP ganhar menos do que o salário médio pago pelo mercado?

No entanto, não deixa de ser impressionante analisar estes números apenas pela sua crueza. Num país onde o salário mínimo não chega aos 500 euros e o vencimento médio está longe dos 800, é perturbador tomar contacto com realidades tão faraónicas quanto estas. Não só acaba por ser verdade que Portugal é dos países que melhor paga aos seus gestores, como é ao mesmo tempo um mapa para ajudar a perceber como chegámos ao buraco onde nos encontramos.

A culpa do défice não é do Fernando Pinto nem do Faria de Oliveira. No entanto, a irresponsabilidade de quem lhes propôs e ofereceu os vencimentos que auferem é ilustrativa do tipo de pensamento que conduziu as contas públicas directamente para o pântano.

E se esses valores parecem ser exagerados mas encontram correspondência no que é praticado no sector privado – estratégia usada para alegar que as empresas públicas que operam no mercado privado devem poder oferecer vencimentos ao nível das concorrentes – outras empresas há onde o valor parece demasiado exagerado.

O presidente do Conselho de Administração da Parapública SGPS recebe quase 250 mil euros por ano, o seu homólogo nas Águas de Portugal leva para casa 205 mil euros por ano e o presidente de Administração dos CTT recebe 336 mil euros por ano.

O presidente do Conselho de Administração da RTP recebeu dos cofres públicos 254 mil euros em 2009, um pouco mais que o Vice-presidente da administração da ANA – quase 214 mil euros. O cenário nas Estradas de Portugal não é muito diferente, com o presidente a receber quase 200 mil euros em 2009.

Outro exemplo interessante é o do vencimento do presidente do Conselho de Administração da Metro do Porto, uma das empresas mais endividadas do sector empresarial público, que em 2009 recebeu pouco mais de 157 mil euros.

A lista é bastante longa e estes são apenas alguns exemplos. Não se trata do argumento demagógico de “olha para estes marmanjos que fartam-se de ganhar dinheiro sem nada fazerem para o justificar”. É antes um olhar sobre uma realidade que não pode continuar e que muito provavelmente é apenas um indicador visível do descontrolo na gestão das contas públicas.

E, como diz o meu tio, o grande problema nem é estes ganharem muito. É os outros não ganharem nada.

Fica aqui o link para consultarem os resultados do estudo do CDS.

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