É tudo uma questão de timing

Durante um ano meia Europa implorou, gritou e bradou aos céus para Portugal pedir ajuda e aceitar o dinheiro proveniente do pacote de auxílio disponibilizado pelo FMI e por Bruxelas. Durante esse ano, o Governo de minoria foi estoicamente resistindo perante a escalada dos juros da dívida e a impaciência comunitária. Por fim, o Governo em gestão cedeu e fez o pedido de ajuda formal.

Reacção dos mercados? Nenhuma – os juros da dívida continuam em níveis muito altos. Reacção dos parceiros europeus? Tinha de ser mesmo agora…

A explicação para este aparente contradição é simples. Do ponto de vista das agências, acaba por ser irrelevante o pedido de ajuda enquanto os fundos não entrarem no mercado financeiro e a malta de fora não tomar decididamente o pulso da coisa. Do plano dos parceiros europeus, a reacção é de alguma frustração pois não sabem com quem devem negociar.

Fazendo fé numa notícia do Financial Times, aquilo que os amigos de Bruxelas preferiam era que o pedido fosse apenas feito depois das eleições de Junho, para assim negociar com um governo em pleno exercício das suas funções, legitimado pelo voto popular e que se pudesse comprometer com o plano desenhado pelos nossos novos fiadores.

A alternativa ao pedido nesta altura era o país aguentar um bocado mais os juros elevados – escreve o FT que com uma dívida total de 144 mil milhões qual será a diferença com mais alguns milhares de milhões em cima? – e depois das eleições reunir-se com as instituições e submeter o pedido formal de ajuda.

Percebe-se o quadro do raciocínio aqui exposto, mas deve-se discutir a substância do mesmo. Argumentado que será possível Governo e oposição unirem-se num cenário de extrema dificuldade e responsabilidade, não me parece de todo impossível que o FMI e a União Europeia se sentem à mesa com o Governo e este negoceie com a oposição o melhor pacote de ajuda possível.

Claro que este cenário só seria uma possibilidade real se o relacionamento entre Governo e oposição fosse, no mínimo, cordial. Não o é e o país acaba por pagar a factura desse mau relacionamento. Aliás, o azedar de relações entre as principais figuras do espectro político é apenas mais um exemplo do mau serviço que esta classe e esta geração de políticos tem prestado ao país.

Como já escrevi noutro texto, estamos numa altura em que não precisamos de políticos. Nada disso. Aquilo de que precisamos é de estadistas, homens e mulheres com verdadeiro sentido de Estado, capazes de inspirar e mobilizar o país.

De homens pequenos de espírito, corruptos e incompetentes está o país farto.

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4 respostas a É tudo uma questão de timing

  1. Phillipe:

    Os juros continuam a subir (assim como o risco) porque há algumas probabilidades de se verificar uma reestruturação da dívida. Ora, se isso acontecer, os credores vão perder dinheiro. Daí o aumento do risco.

  2. hugo,

    apesar de não ser esse o espírito do texto, é evidente que as sucessivas flutuações nos juros estão relacionadas directamente com a instabilidade e incapacidade política que se vive em Portugal, para lá de todos os outros problemas. se as coisas estivessem calmas como as águas do atlântico, os juros teriam a altura do marques mendes.

  3. Sim, todos esses fenómenos “ajudam” na percepção do risco. Mas julgo que os mercados percebem que será incrivelmente difícil para Portugal pagar as dívidas a tempo e horas. Por isso é que as agências de risco acautelam. Se estivéssemos instáveis mas não devêssemos tanto dinheiro assim acho que não havia problema.

  4. sim, mas convenhamos que uma reestruturação não é propriamente o fim do mundo. vários países acabam por fazer isso e Portugal provavelmente irá ter de fazer o mesmo. serão 10 anos muito complicados e é nestas alturas que a malta precisa de liderança.

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