Quanto vale uma época de sucesso?

Com a derrota de ontem em Braga, o Benfica falhou o quinto objectivo da época. Depois de ter perdido a Supertaça em Agosto, falhado a continuidade na Liga dos Campeões, perdido o campeonato em casa e desperdiçado a oportunidade de disputar a final da Taça de Portugal, os comandados de Jesus falharam a qualificação para a final da Liga Europa, a única competição que poderia ainda camuflar o falhanço redondo em que esta época se tornou.

A conquista da Taça da Liga é muito pouco para salvar uma época que dirigentes, treinadores e jogadores prometeram que seria ainda melhor que a anterior, marcada pelo crescimento qualitativo das exibições do Benfica, pela conquista do Campeonato e da Taçada Liga, e reafirmação internacional do clube. Esta seria a época para reforçar esses ganhos, conquistando mais provas internas e solidificando a posição do Benfica enquanto cliente regular da Liga dos Campeões.

Contudo, nada disto aconteceu. Em retrospectiva, as metas estavam claramente altas demais. E estavam altas porque a liderar o processo estavam pessoas sem hábitos nem cultura de vitória. Desde logo o treinador Jorge Jesus que, até à chegar ao Benfica, não tinha nenhum título relevante no seu currículo. Se em 2009/2010 mostrava ser um treinador com sede de ganhar, em 2010/2011 tornou-se num treinador mais acomodado, sem criatividade no banco e capacidade de improviso. Pior, não levou os adversários a sério e deixou-se surpreender. E se o FC Porto de Villas Boas surpreendeu toda a gente na final da Supertaça em Agosto, nos confrontos para o campeonato e taça Jesus devia saber ao que ia.

A época parece ter sido mal pensada desde o início. As saídas de Di Maria e Ramires não foram devidamente colmatadas, principalmente a do internacional brasileiro. David Luiz ficou a contra-gosto no plantel. O real desafio que a revalidação do campeonato ia representar foi mal medido, não levando a sério a ameaça real que o FC Porto reforçado com João Moutinho iria representar.

A ligeireza com que a temporada foi sendo pensada viu-se pelo atraso no início da preparação, pelas férias concedidas aos atletas que estiveram no Mundial, pela forma como a equipa abordou os jogos de preparação, pela ausência de opções de qualidade no plantel e pela forma pouco séria como os jogadores discutiam as probabilidades de não serem bi-campeões. Se a isto juntarmos a renovação de Jesus, uma novela que se arrastou algumas semanas perante o perigo do roubo azul-e-branco (e cada vez mais me convenço que tudo não passou de uma estratégia de Pinto da Costa para quebrar a confiança entre Vieira e Jesus e desestabilizar o ambiente na Luz) mais facilmente podemos entender como esta época não poderia resultar em muito mais do que aquilo que foi.

Os problemas e deficiências registadas em Julho foram tendo reflexos ao longo de toda a temporada. A equipa que corria mais do que os adversários, que controlava a bola, que criava 10, 15 oportunidades de golo por jogo, que assustava os rivais, tinha desaparecido para dar lugar a 11 fidalgos que julgavam que o simples peso da camisola seria suficiente para garantir as vitórias necessárias. Ora, os primeiros 5 jogos oficiais da época mostraram que a raça e o querer da temporada passada tinham sido substituídas pela passividade e indiferença.

Os reforços tardaram em fazer a diferença e a equipa deixou uma pálida imagem na Liga dos Campeões (4 derrotas em 6 jogos, destacando-se a derrota em Israel por 3-0 como das mais embaraçosas dos últimos tempos). As 20 vitórias consecutivas e a aparente melhoria exibicional assentaram na subida de forma de alguns jogadores (como Gaitán, Salvio e Aimar) e numa sequência de jogos de grau de dificuldade reduzido (tirando a vitória no Dragão para a taça, no pior momento do FC Porto em toda a época). Essas vitórias camuflaram algumas dificuldades e limitações do plantel que vieram ao de cima na primeira contrariedade: em Braga, claro está, a equipa perdeu por 2-1, disse adeus de vez ao título e mostrou o quão frágil era a força que vinha demonstrando.

Se olharmos para o plantel do Benfica, não há flanqueadores (havia Salvio e depois desse não sobrou ninguém), não há alternativa a Maxi na direita, não há central para o lugar de David Luiz (Sidnei caiu em desgraça e não o souberam recuperar) e, mais do que isso, não há um plano b. Jesus joga no seu 4-1-3-2 e parece não saber mais. Ao contrário do treinador activo e dinâmico da época passada, este ano Jesus pareceu sempre letárgico no banco, desmoralizado, sem capacidade de reacção e assombrado pelos desafios à sua frente. O seu baquear constante nos grandes jogos, em geral, e perante Villas Boas e Domingos, em particular, é disso mesmo prova.

Claro que Jesus não é o único responsável. Aliás, nem seria justo crucificar o homem a quem atribuíram todos os méritos pela conquista do título em 2010. Contudo, não pode ser isento de várias responsabilidades, principalmente quando todas as contratações tiveram o seu aval e teve a liberdade e autonomia necessárias para gerir o plantel a seu bel-prazer.

A direcção tem também várias responsabilidades e será a sua capacidade de análise e reflexão sobre o que correu mal esta época que irá determinar os eventuais sucessos da próxima. Como LFV e Rui Costa gerirem esta situação terá um grande impacto na forma como o Benfica vai entrar na próxima época.

Jesus vive com o crédito adquirido na época anterior. Mas nem isso lhe aguentará uma nova temporada igual a esta, onde a incapacidade para competir com o FC Porto ficou evidente demasiado cedo. Instituir uma cultura de vitória só é possível ganhando, e ganhando muitas vezes. Acredito que Jesus fique na próxima temporada e tenha a oportunidade final para mostrar aquilo que realmente vale. Uma prova dos nove. E essa demonstração começa já este fim-de-semana com a forma como a equipa abordar o que resta da temporada, e prolongar-se-á durante o defeso e a pré-temporada. A base das conquistas constrói-se em Julho. Aguardemos para ver que tipo de Benfica teremos nessa altura.

Parabéns ao Braga. Feito notável e com um impacto real para o clube, a cidade e a região.

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