União a sério

O Dicionário Priberam define o substantivo feminino “união” como “conformidade de esforços ou pensamentos”, “concórdia”, “aliança” ou “confederação”. Estes são apenas alguns exemplos de uma lista de 11 entradas.

Ora, pegando no espírito dessa definição ficamos a perceber que uma união pressupõe alguma compartilha de valores, ideias e o empenho em preservar os mesmos ideais. A concórdia aqui em causa sublinha a vontade de todos os participantes em zelarem pelo bem-estar uns dos outros, tal como na criação de condições para que todos tenham acesso à felicidade e à prosperidade.

Para além disso, essa união deve estar organizada de modo a responsabilizar todos os membros e atribuir a cada um, e de forma proporcional e equitativa, as tarefas entendidas como necessárias para o grupo alcançar o estado de desenvolvimento máximo. No caso de uma união com interesses políticos, é recomendável que os integrantes desse conjunto tenham uma cartilha comum, uma visão política, social e civilizacional comum. Mais, a solidariedade e a harmonia devem estar presentes e servir de fundação a todas as decisões.

Vem tudo isto a propósito da União Europeia e do desafio que enfrenta neste momento. A ligação económica entre vários países teve bons resultados no período em que cada país-membro tinha a sua moeda e aquando da instauração do euro os frutos da união económica continuaram a cair da grande árvore europeia – pelo menos para os países mais fortes. Contudo, ao primeiro forte abanão a raiz dessa árvore parece ter saído danificada e cresceram fortes desavenças e perturbações que muitos julgavam inquebrável.

Assentemos o seguinte: não há qualquer tipo de missão de solidariedade entre Estados-membros da União Europeia. Desde os tempos do pós-guerra que a união era vista como uma forma de retirar ganhos económicos e financeiros de uma situação de partilha de um mesmo mercado. Os sucessivos alargamentos apenas iam aumentando o mercado potencial dos países mais fortes e expondo os mais fracos a novos padrões de consumo e de estilo de vida. Ao fim e ao cabo, todos os países acabavam por ganhar porque estavam a fazer (ou a ter acesso a) mais dinheiro.

No entanto, o medo de perder a soberania nacional levou a que nenhum Estado-membro tenha alguma vez sugerido a criação de um governo Europeu, uma instituição com claras competências legislativas no espaço comunitário. Pior, nem com a criação de uma moeda comum se decidiu embarcar rumo a uma (verdadeira) política económica comum.

Claro que havia alguma regulação mas como se viu pela fraude Grega, tudo isso era apenas smokes and mirrors. Na realidade, os países governavam e geriam os fundos comunitários como queriam, negociavam a sua dívida como queriam e irresponsavelmente iam direccionando os seus países – e a Europa, por arrasto – para uma situação de falência financeira e social.

Esta semana, os ministros das finanças da zona euro discutiram a eventual renegociação da dívida grega, quais os impactos da mesma e que soluções devem ser assumidas para resolver o problema grego. Na Grécia, altos responsáveis já começaram a atirar para o ar a possibilidade de deixarem o euro. Em Portugal, como bem sabemos, várias vozes têm sugerido o mesmo. A Europa treme.

A saída de um único país da zona euro significaria o início do fim do projecto europeu, tal como o conhecemos. A moeda falharia claramente e as dívidas dos países europeus passariam a valer zero – pelo menos a dos países fracos – o que acabaria na falência de bancos e num sem-fim de problemas sociais.

Naturalmente, ninguém vai deixar o euro nem a moeda acabará – a divisa continua bastante forte. Mas o simples facto de alguns dos integrantes falarem do assunto leva-nos a discutir a real força da União Europeia.

Não tenhamos dúvidas nem ilusões: a crise que se vive na Europa é sobretudo política. Falta de liderança, coragem e arrojo conduziram a Europa para esta situação. Políticos em vez de estadistas, personalidades sem sentido de “Europa” e mais preocupados em zelar pelo voto doméstico conduziram os destinos do continente nos últimos anos e a sua falta de argumentos, a incapacidade de resposta é apenas o sinal mais evidente da falta de qualidade dos políticos por toda a Europa.

Hoje assinala-se o Dia da Europa. Os líderes europeus deveriam então aproveitar este dia para repensarem o modelo de desenvolvimento que adoptaram para o continente, avaliar os resultados que esta adulterada união tem promovido e pensar se de facto aquilo que move as nações é um desejo superior de integração ou apenas a vontade de melhorar as coisas em casa.

E isto porque se a vontade dos países não é caminhar rumo a uma maior e mais perfeita união política, económica e social, então de pouco ou nada vale discutir a Europa e o seu papel no mundo. Assumamos que se trata apenas de um mercado comercial onde os membros têm privilégios e regalias sobre a concorrência extra-continental.

De nada valerá lutar pela preservação de uma União que se encontra irremediavelmente desunida. Para a União Europeia sobreviver e prosperar precisará de se unir a sério, de adoptar a tal “conformidade de esforços ou pensamentos” e viver em aliança e confederação. A saída para a União Europeia é uma união a sério. O resultado de uniões a brincar é este.

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