O perigoso destino de Sócrates

A pré-campanha eleitoral e as várias sondagens que têm sido publicadas pelos diferentes média parecem mostrar algo impensável há um mês atrás: um empate técnico entre Sócrates e Passos Coelho, entre PS e PSD.

Se as sondagens valem o que valem, a verdade é que tudo isto não deixa de ser estranho. Analisando a sondagem de ontem do Público e da TVI, o PSD surge na frente com 36,2% e o PS está logo a seguir com 35,1%. Com estes valores dentro da margem de erro, o que isto quer dizer é que nesta altura os dois partidos estão empatados.

Mais, para uma maioria de centro-direita no próximo Parlamento parece que o mais determinante será a votação do CDS, pois com o PSD a cair aos poucos e o CDS a subir de timidamente, a maioria de direita começa a ficar cada vez mais difícil – e, por isso, mais dependente de Portas.

Claramente, esta era uma eleição que dependia inteiramente de Passos Coelho. Motivado pelas sondagens de Janeiro e Fevereiro, que lhe davam a maioria absoluta, precipitou a queda do Governo minoritário. Contudo, a sua imaturidade levou-o a desbaratar a vantagem conquistada, perdendo terreno para um hábil Sócrates que lhe passou o ónus da responsabilidade pela crise política e económica.

José Sócrates é um hábil e talentoso político, com o dom da palavra e jeito para o sound-bite. Mais, repetindo sempre a mesma cassete, vai conseguindo levar água ao seu moinho, desculpando os desastres destes últimos seis anos com a crise internacional, o PSD e, por vezes, o Presidente da República.

Aquilo que estranha no meio de tudo isto é haver eleitor que ainda considere votar em Sócrates. É hoje inegável que o Governo respondeu mal à crise, despejando dinheiro sobre activos incapazes de gerar rendimento – veja-se o BPN, por exemplo, mas também as várias empresas dos sectores têxtil e das cablagens que receberam dinheiro do Estado mas fecharam as portas na mesma – e sem soluções para os desafios que se colocavam ao crescimento da economia nacional.

Depois disso, demorou a entender a inevitabilidade do pedido de ajuda externo, irresponsavelmente autorizando o país a comprar dinheiro cada vez mais caro até ao ponto de ruptura. Os sucessivos PECs e as adendas aos mesmos foram apenas episódios que ajudaram a intensificar o aspecto circense da situação.

O país está pior hoje do que estava há dois e seis anos atrás (momentos das vitórias de Sócrates). Há mais desemprego, pior serviço de saúde, mais incerteza na Segurança Social, mais instabilidade na educação, pior justiça e um clima de derrota que apenas vem adensar o efeito quase cataclísmico que o memorando entre o FMI e o Governo teve sobre a população.

E mesmo assim, o responsável máximo por tudo isto está claramente na luta pela vitória final. Com maior ou menor folga, o PS deve alcançar uma votação na próxima eleição que, no mínimo, o manterá como força bastante relevante na AR e, possivelmente, no Governo. Coelho e Portas dizem que não governam com Sócrates. Irrelevante. Pelo andar da carruagem, é bem capaz de ter de ser Sócrates a dizer se aceita formar governo com PSD e CDS.

Volto a confessar a minha incredulidade em ver que, perante tudo aquilo que tem passado, depois de ontem Wolfgang Münchau ter classificado de “apavorante” a gestão da crise feita por Portugal, de ter criticado duramente o facto de Portugal ter esperado pelo último minuto para pedir ajuda, de dar a entender que Sócrates só poderia estar totalmente alheado da realidade quando disse que o acordo com o FMI era bom para o país quando o mesmo inclui “cortes selvagens” de despesa, e prevê dois anos de recessão “profunda”, uma percentagem ainda significativa do eleitorado considere seriamente a hipótese de entregar novamente as chaves da governação a Sócrates.

Paul Krugman escreve hoje no NY Times que uma das incongruências do ataque à recessão global é ainda nenhum responsável político ter sido culpado pelo que aconteceu. Vai mais longe e refere que é uma total hipocrisia ver que aqueles que hoje falam em apertar o cinto e em fazer poupança eram os mesmos que aprovavam cortes fiscais para os mais ricos, dizendo mesmo que nada iremos aprender com esta crise se aqueles que a causaram continuarem a tomar todas as decisões.

No seu artigo no Financial Times, Wolfgang Münchau escreveu que com líderes como Sócrates não se pode dirigir uma união monetária.

Mesmo assim, Sócrates continua a ter fortes possibilidades de sair vencedor do combate de 5 de Junho. É corrente dizer-se que cada país tem o Governo que merece. Se ao fim de 6 anos de trapalhadas os eleitores portugueses voltarem a colocar Sócrates em São Bento, então se calhar merecemos todos a miséria e a desgraça em que o país vai viver.

E temos ainda o “problema” de ver a esquerda unida com mais votos que a direita. Ainda bem que nem Jerónimo, nem Louçã têm qualquer vontade em governar o país.

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Uma resposta a O perigoso destino de Sócrates

  1. “Aquilo que estranha no meio de tudo isto é haver eleitor que ainda considere votar em Sócrates.”

    Estas eleições são a prova de fogo da Democracia portuguesa. O Dr. Oliveira dizia que os portugueses não eram capazes de viver num regime democrático. Dia 5 vemos se tinha razão ou não.

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