20 anos depois

Novembro 10, 2009

O muro caiu há 20 anos. Mas muito mais ainda há para fazer. Fica a narrativa de um dos dias mais importantes da história da humanidade através das palavras de Ken Walsh, correspondente da US News Weekly para a Casa Branca e que estava em Berlim no dia em que Ronald Reagan pediu a Gorbachev para “derrubar” o muro.

 

O lobo adormeceu

Novembro 2, 2009

Para todos aqueles que cresceram a ouvir a emissão da “Hora do Lobo”, na antiga Rádio Comercial, a morte do radialista António Sérgio não deixa de causar alguma impressão. Voz inconfundível, é tão irrefutável quanto determinante o seu contributo para o progresso e a afirmação de uma certa forma de estar e de sentir a música em Portugal. Desde locutor a produtor, António Sérgio tudo fez para promover a música, portuguesa ou de outra nacionalidade, dentro deste país tão ingrato para aqueles que fazem da coisa cultural a sua causa.

Para quem quiser recordar António Sérgio fica (provavelmente) a última entrevista televisiva do “John Peel” português, o homem que foi escorraçado da Rádio Comercial e recuperado pela Radar. A entrevista foi dada a Fernando Alvim, em Agosto, por altura do “Cinco para a Meia-Noite”. O lobo merecia mais.

King James

Novembro 2, 2009

A nova temporada da NBA começou na semana passada. Uma das estrelas da competição é LeBron James, a vedeta dos Cleveland Cavaliers. O jovem prodígio, a quem chamam “King James”, é visto como o melhor jogador a aparecer no campeonato desde Michael Jordan. O número é o mesmo mas o estilo é bastante diferente.

Seja como for, LeBron tem a concorrência de Kobe Bryant, o actual melhor jogador da NBA e MVP da final do ano passado que os Lakers ganharam aos Magic, na luta pelo papel de protagonista principal da prova. Para esta temporada fica o desafio já lançado ao Rei de Cleveland: levar os  Cavs à final. Para o ajudar, Cleveland recrutou Shaquille O’Neal, uma das presenças mais dominantes da história da NBA e que tem como missão escudar o jovem rei.

Não vai ser fácil para King James levar os Cavs à final. Nesta altura, Cleveland tem duas derrotas em quatro jogos, estando em segundo lugar na sua divisão e em oitavo na conferência. Se a fase regular acabasse hoje, teriam de defrontar os invictos Celtics nos playoff. E todos nós queremos mais uma final entre os Celtics e os Lakers. 

Mas, seja como for, James é um brilhante jogador e está no último ano do contrato com os Cavs. Será que na próxima época veremos King James a entreter uma nova corte?

Para os que desconfiam de LeBron, aqui fica o vídeo das dez melhores jogadas do Rei sem anel na época passada, em que foi considerado o MVP da fase regular.

Já se passaram umas horas desde a contagem do último voto nas eleições autárquicas, mas não é tarde para retirar algumas ilações interessantes da noite eleitoral do úlitmo domingo. A mais interessante de todas é o facto de todos os partidos, de uma forma ou de outra, terem cantado vitória.

A começar pelos dois “grandes”, PS e PSD reclamaram para si a vitória no domingo: o PS por ter sido o partido que mais cresceu no número de câmaras e aquele com mais votos; o PSD por ter sido aquele que mais câmaras e juntas conquistou. No entanto, e para dizer a verdade, nenhum dos dois foi realmente o vencedor, pois se é verdade que ninguém cresceu tanto quanto o PS, não deixa de ser factual que os socialistas continuam em segundo lugar no número de câmaras. Contudo, a verdade é que o PSD sozinho tem menos câmaras do que o PS, apoiando-se em coligações com o CDS e outros pequenos partidos para fazer a diferença. E, por exemplo, se no Porto e em Gaia essas coligações têm um efeito quase marginal, a verdade é que em Faro, por exemplo, o PSD nunca teria ganho sem a presença do CDS.

Também não deixa de ser verdade que para o partido que mais perdeu nas úlitmas eleições legislativas manter a supremacia no número de câmaras é um feito notável. Num momento particularmente complicado, o PSD mantém a sua força ao nível autárquico mesmo contra um PS que a nível nacional se prepara para mais quatro (serão mesmo quatro?) anos no poder. Na minha leitura, e depois das três eleições que marcaram 2009, Ferreira Leite e Sócrates ficaram empatados – com a ressalva de Sócrates ter ganho o combate mais importante.

Depois, entre os mais pequenos todos encontraram razões para festejar. Paulo Portas alegrou-se com o crescimento de 1 por cento no CDS nas mesas de voto, sublinhando o maior peso do partido nas coligações e no facto de ter reforçado a posição em Ponte de Lima onde, mesmo sem Campelo, o CDS aumentou a votação.

Jerónimo de Sousa, apesar de ter visto a  CDU repetir o pior desempenho de sempre em eleições autárquicas, também ficou satisfeito com os resultados, sublinhando a vitória em Setúbal como a grande conquista comunista. Apesar de o partido manter influência no Alentejo, a verdade é que o PCP vai desaparecendo, ficando no ar a dúvida sobre qual o destino deste partido quando a sua base de apoio – bastante tipificada – desaparecer?

Depois, o Bloco. Louçã afirmou um crescimento de quase 20% do Bloco nas autárquicas mas, mesmo assim, não conseguiu eleger um vereador nem em Lisboa, nem no Porto. Não deixa de ser interessante reparar que apesar de ter já uma força que a nível nacional tem o seu peso, ao nível autárquico o Bloco é ainda um partido com uma presença bastante residual, ignorado pela maior parte dos eleitores. Depois de um resultado nas legislativas que não pode ser encarado como positivo – o objectivo era ser terceira força política e ‘forçar’ o PS a entendimentos à esquerda – o Bloco tem outro resultado negativo que deve fazer pensar o líder Francisco Louçã. A postura crítica e agressiva no parlamento pode dar votos nas legislativas, mas não dá credibilidade na hora do voto local.

Antes de terminar, uma menção para Felgueiras que voltou a fazer parte do território nacional.

Cavaco Silva queria ser um Presidente cooperante. Figura de respeito de um campo político oposto ao do actual Governo, o antigo primeiro-ministro queria ser uma força de desbloqueio, uma figura de proa rumo ao desenvolvimento do país. 

Cavaco queria, mas não o deixaram. É pelo menos essa a leitura que se pode fazer do discurso de ontem do Presidente da República, onde o chefe-de-Estado acusa directamente o PS de o ter envolvido na campanha e de ter atirado areia para os olhos dos eleitores, fugindo assim aos temas mais importantes – e, como que por uma inércia em cadeia, contagiando toda a oposição e rebaixando o nível e a qualidade do debate.

O PS, naturalmente, já veio repudiar todas as insinuações de Belém. Dizem que não tiveram nada a ver com o caso e lamentam as declarações do Presidente. Sócrates disse hoje que não queria dizer nada que desgastasse ainda mais as instituições mais altas do Estado. Não queria dizer, mas o seu silêncio – como o de Cavaco antes – diz tudo.

A relação entre Sócrates e Silva azedou definitvamente e não há volta a dar-lhe. A situação do país é difícil e o que menos interessava era um desentendimento entre a Presidência da República e São Bento, ainda para mais numa altura em que os socialistas se preparam para formar um governo com maioria minoritária no parlamento.

Nos próximos tempos a opinião pública vai acompanhar de perto esta situação. No parlamento, o PS pode sentir-se (erradamente) inclinado para procurar entendimentos à esquerda, quando a razão e a moderação estão do outro lado. Na Presidência, Cavaco pode sentir-se tentado a dificultar a vida a Sócrates e amigos. Talvez não o faça, já que faz parte do grupo dos moderados e daqueles que colocam o interesse nacional acima de tudo.

Mesmo assim, Cavaco com o seu silêncio de Verão complicou umas contas que já pareciam feitas: a reeleição em 2010.

Fica aqui a ligação para o discurso, em texto e vídeo, do Presidente.

Menezes arrasa com eles

Setembro 25, 2009

A entrevista foi dada ao El País mas as declarações arrasadoras de Luís Filipe Menezes já chegaram a Portugal. O autarca de Vila Nova de Gaia, e antigo presidente do PSD, critica a qualidade (ou a falta dela) desta campanha eleitoral, calssificando-a como a mais “medíocre da história da democracia portuguesa”, criticando o facto de se ter extraviado em ”pormenores sobre quem tem ou não capacidade para apresentar propostas concretas com poder de mobilização”.

Não deixa de ficar no ar a ideia de que Menezes está interessado em voltar a lutar pela presidência do PSD, quem sabe criando condições para aproveitar um eventual falhanço de Manuela Ferreira Leite nas eleições de domingo. Mesmo assim, e caso a actual líder caia perante Sócrates, Menezes não será o único interessado em ocupar a presidência do partido. Rui Rio, por exemplo, poderá ser um adversário de peso para o presidente da Câmara de Gaia.

Para quem quiser ler a entrevista na íntegra, fica aqui o link. Para quem preferir uma versão em português, está aqui a do Público.

A campanha já arancou?

Setembro 19, 2009

Desde o arranque oficial da campanha eleitoral já ouvimos falar do TGV, dos votos comprados no PSD, da licenciatura de Sócrates e do escândalo das escutas, encomendadas ou não, no Palácio de Belém.

Porém, ainda não ouvimos falar das reformas na justiça. Ainda não percebemos qual a visão dos diferentes partidos para a Segurança Social. E como propõem os partidos resolver os problemas na administração pública?

Quais são os planos para a educação? E o que pensam os líderes partidários do ensino superior, das reformas já implementadas e da alteração do código de funcionamento das universidades? Qual o papel que a investigação científica desempenha nos programas e nas prioridades dos políticos que concorrem a São Bento?

E, quais os grandes programas para a Agricultura, Defesa, Turismo e Saúde? E a economia? Quais são as grandes diferenças – TGV à parte – entre PS e PSD para o restauro da confiança na economia e do regresso aos dias de crescimento do nosso produto?

A uma semana das eleições convinha que todos os políticos respondessem a estas e a muitas outras perguntas. Para falar para o ar já chegam os quatro anos que intervalam as legislativas. Esta é a altura determinante para os partidos e para os eleitores. É a hora de escolher e distinguir programas, tomar decisões e assumir novas responsabilidades. É a hora da verdade.

Por isso, fica mais uma pergunta: quando arranca a campanha?

Portugal está quase, quase, quase (praticamente) fora do Mundial 2010. É um facto. Depois de conquistar apenas dois pontos nos três jogos já realizados em casa, de não conseguir ganhar um dos jogos à Dinamarca e nem sequer marcar um golito nos dois confrontos contra a Suécia, o quarto lugar no grupo de qualificação acaba por ser natural.

Tal como natural parece ser apontar todas as razões para este insucesso a Carlos Queiroz, o homem que chegou de Manchester para fazer de Portugal campeão do Mundo.

Ora, é evidente que o seleccionador tem sempre grandes responsabilidades nos sucessos e insucessos da sua equipa. Que o digam Humberto Coelho e Scolari que depois de deixarem a Federação fizeram contratos financeiramente muito interessantes. Que o diga também António Oliveira que depois do desastre da Coreia e do Japão jamais encontrou trabalho.

Queiroz está ligado a este aparente fracasso. Mas, não está sozinho. Gilberto Madaíl e os restantes dirigentes federativos também estão no mesmo saco. Estão nesse saco porque foram eles quem foi buscar Queiroz a Old Trafford. Foram também eles quem concordou com a suposta “renovação” que o actual seleccionador queria levar a cabo. Foram eles quem aceitou o projecto a médio prazo, um projecto que previa uma selecção forte mais para o Euro 2012 do que para o Mundial 2010.

São estes os dirigentes que têm de ser responsabilizados pelos fracassos da selecção ‘A’ mas, também, das equipas mais jovens. Portugal não vence um torneio júnior desde o Europeu de Viseu em 2003, ganho por jogadores como Miguel Veloso e João Moutinho. Desde então, nada mais foi ganho. E, pior: Portugal tornou-se numa equipa banal nos escalões mais jovens.

As chamadas de Pepe, Deco e Liedson à selecção são uma prova de que algo vai mal na formação em Portugal. Não se conseguem criar jogadores de selecção e não existem, nesta altura, atletas que confiram maior prestígio à camisola das quinas. Não existem jogadores como Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Paulo Sousa ou João Pinto. Não há um líder, não existe uma referência. Nada.

Queiroz não pode ser responsabilizado pelos problemas estruturais do futebol português resultantes de seis anos de falta de renovação. Scolari, com todos os seus méritos, escolhou um núcleo e foi com eles que foi para o “mata-mata”. Renovação, zero. E, se tivermos memória, os problemas na selecção começaram com Scolari, com a dificuldade de qualificar a selecção para o Euro 2008, com a pobreza das exibições e com a ausência de liderança no campo. Lembram-se do jogo com a Finlândia no Dragão?

Queiroz também não é o culpado dos falhanços dos nossos jogadores. Apesar de termos bons valores, não temos grandes jogadores na actual equipa. Não temos jogadores que assumam a partida e as suas responsabilidades dentro do campo. Não há um jogador como Figo que esteja sempre a pedir a bola quando os colegas estão apertados. Não há nenhum Rui Costa a comandar os processos ofensivos da equipa. Não há Fernando Couto a mandar na defesa. Não há nada nem ninguém.

Há Ronaldo. O tal que é o “Melhor do Mundo”. Contudo, quando Cristiano veste a camisola da selecção deixa de ser o jogador que costuma ser nos clubes. Enverga a braçadeira mas não a percebe. Deram-lhe demasiada importância, demasiado cedo. Cristiano Ronaldo fez doze remates à baliza contra a Dinamarca. Quantas bolas entraram?

Enquanto toda a gente não assumir as suas responsabilidades, não vale a pena crucificar apenas Queiroz. Todos têm de assumir a sua culpa. Todos têm de tirar ilações. A culpa, essa, não é só do Carlos.

A sala estava cheia

Agosto 29, 2009

A sala estava cheia. Não era para menos, uma vez que se tratava da estreia do mais recente filme de Quentin Tarantino, um realizador intemporal que faz da sua paixão e respeito pelo cinema a base de todo e qualquer projecto. A última sessão do dia.

A sala estava cheia. Respirava-se intensidade na sala. Cada trailer era demasiado longo. Cada publicidade era incompreensivelmente ridícula. Nós estávamos lá para uma coisa e só uma: Inglourious Basterds.

A sala estava cheia. Capítulo 1: “Era uma vez na França ocupado pelos Nazis…”. Assim começa a maior obra de Tarantino desde “Pulp Fiction”. Isso é seguro. Agora, será o seu melhor trabalho de sempre?

A sala estava cheia. Cada palavra de Christoph Waltz é escutada com toda a atenção. Seja proferida em francês, alemão, inglês ou italiano. Não podemos deixar escapar nada. Não podemos deixar o filme fugir.

A sala estava cheia. Tarantino transformou a Segunda Guerra Mundial num spaghetti western. E não me incomodo muito com isso. Ele não gosta muito de como o conflito acabou. Propôs outro final. É-lhe permitido adulterar a história. Se calhar, num universo paralelo foi mesmo assim que a guerra acabou.

A sala estava cheia. Brad Pitt é um alucinante judeu com sangue índio, Aldo, o Apache, o líder dos Basterds, um bando de judeus que se infiltra em França para matar nazis. A missão é assim tão fácil. Matar nazis, um por um. Sem pressas. Eles chegam para todos.

A sala estava cheia. Mélanie Laurent passeia-se pela câmara de Tarantino. Os nossos olhos estão onde ela está. Assim com com Diane Kruger, a elegante actriz alemã que se junta aos aliados num esforço para eliminar os nazis. E a música? Não dá para descrever uma banda sonora assim.

A sala estava cheia. Os sacanas sem lei matam nazis. Os nazis matam judeus. Os franceses tentam matar nazis. E Tarantino mostra que, afinal, a história do conflito não estava realmente contada. E, no final, a sala continuava cheia e, apesar de não se ter passado todo o tempo em que os créditos estiveram a passar a bater palmas ao realizador e à sua equipa, a maior parte da sala ficou para ver tudo até ao fim.

A sala esteve cheia para ver a obra maior de Tarantino – sou eu quem o diz. “Inglourious Basterds” é o sonho de qualquer realizador. E só podia ter saído da cabeça de Tarantino.

Depois do filme, a sala ficou vazia.

O Leão do Senado

Agosto 26, 2009

TedKennedy

Morreu Ted Kennedy (1932-2009), o último representante da família no Senado. Irmão do ex-presidente John F. Kennedy e de Bobby F. Kennedy, ambos assassinados, Ted passou uma vida a servir o seu país. A última imagem que deixa é a do apoio a Barack Obama nas primárias do Partido Democrata no ano passado.

Depois das mortes do pai e dos irmãos, Ted assumiu as rédeas da família. Tal como os irmãos mais velhos, Ted também tinha aspirações na política e a Casa Branca era um objectivo. Contudo, um aparatoso e mal explicado acidente de viação em 1969 deitou por terra todas as suas aspirações. No entanto, Ted Kennedy nunca precisou de estar na Casa Branca para ter papel importante na elaboração de algumas das leis mais determinantes da história legislativa dos Estados Unidos, em áreas tão importantes como os direitos cívicos, a saúde e a justiça.

O Presidente Obama já reagiu à morte de Ted, apelidando-o não só como um “dos melhores senadores da nossa era” mas também “como um dos americanos que melhor serviu a democracia no país”.

Naturalmente, a morte do Senador pelo estado de Massachusetts é a notícia do dia. A CNN faz aqui um belo trabalho de homenagem à carreira política de Kennedy. Também o Público está de parabéns pelo slideshow que recupera algumas das fotografias mais interessantes de um dos homens responsáveis pela paz na Irlanda do Norte.