Incrédulos e desconfiados, a gente vai continuar?

Domingo à noite saberemos quem é o novo Primeiro-ministro de Portugal. Saberemos também se as sondagens que têm saído nos últimos dias estão perto ou longe da realidade. Ficaremos, então, a saber se o povo é capaz de perdoar e acreditar em Sócrates ou, pelo contrário, se o vai condenar e castigar pelo cataclismo que se abateu sobre Portugal.

Contudo, independentemente dos resultados de domingo, há uma coisa que já sabemos: não há em Portugal estadistas, políticos que possam unir o país e falar com frontalidade ao mesmo. Reparemos no caso de Passos Coelho. Não creio que estarei muito enganado se disser que em nenhum outro momento da democracia em Portugal houve condições para que um candidato vencesse as legislativas total conforto e à vontade.

Não nos esqueçamos que o país está endividado, em quebra de produção, em recessão, com o desemprego a disparar e debaixo do guarda-chuva da ajuda externa. Perante tudo isso, seria de esperar uma goleada do PSD ao PS. Puro engano e equívoco ingénuo. O animal feroz que se chama Sócrates galgou terreno e aproveitou a lentidão da tartaruga Passos Coelho para a apanhar. Tão juntinhos estão que nesta altura há quem diga que estão mesmo empatados. No domingo veremos se as sondagens estão erradas ou se o português tem mesmo uma memória curta.

Mas o pior nem é isto. O pior é que as alternativas, as escolhas que se colocam diante do eleitorado não satisfazem nem convencem os portugueses. Estamos reduzidos a escolher entre o mau e o terrível e este tipo de cenários não potencia aquilo que de melhor o país tem.

Por exemplo, é incrível como nenhum dos candidatos tenha dito abertamente tudo aquilo que o entendimento com o triunvirato implica para o país. Pior do que não explicar devidamente, o governo achou por bem esconder uma actualização do mesmo que é ainda mais exigente e apertado, nomeadamente ao nível dos prazos a cumprir.

Nem Portas, nem Passos tiraram tempo para explicar o que este acordo vai representar para o futuro de Portugal. Sócrates, naturalmente, foge disso como o diabo da cruz e diz apenas que com o PEC IV é que era e que a direita é a responsável pela situação que se vive no país. Os outros dois camaradas nem entram nestas contas e apenas pedem a renegociação da dívida, sem acreditarem muito bem nela nem perceberem o que isso implica.

Nestas eleições não estão em causa projectos de governo nem ideologias políticas. Não interessa se é esquerda ou direita, se quer a avaliação dos professores ou não. O programa de governo já foi escrito e assinado e será vigiado por três entidades estrangeiras – numa sinal claro de desconfiança deles em relação a nós. Aquilo de que Portugal precisa é de um líder, alguém que mexa com o povo, o motive e o leve a acreditar no país, a acreditar que é possível crescer, que é possível viver melhor, que Portugal é mais do que isto, é melhor do que isto e que os portugueses são capazes de tornar o seu país num exemplo de qualidade de vida e justiça social e económica.

Esta será das últimas oportunidades que Portugal tem de se salvar a si próprio, de escolher entre ser uma província Europeia ou um parceiro com voz. Esta é a última oportunidade para os portugueses cumprirem Portugal.

Mas, incrédulo e desconfiado, fico pasmado perante a indiferença dos políticos, perante a sua insensibilidade e aparente indiferença para com a situação do país real e continuam a gastar milhões em almoços, arruadas e jantares, comícios e cartazes, enquanto cada vez mais pessoas dependem do Banco Alimentar para ter o que comer.

Sem um líder carismático, genuíno e frontal, capaz de explicar devidamente às pessoas aquilo por que elas vão passar nos próximos anos mas, ao mesmo tempo, com um plano apropriado para iniciar a recuperação do país, os eleitores vão mesmo escolher entre o pior de duas soluções más, uma pior que a outra.

Pelo bem do país, espero que a escolha não caia sobre Sócrates. Se assim for, se mais uma vez o eleitorado entregar ao engenheiro de domingo as chaves para o país então, se calhar, é porque já desistiu e não tem confiança no país. E se assim for, se calhar merecemos aquilo que nos está a acontecer. E se assim for, a gente vai continuar?

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Hoje, a crise tira férias. Joga o Braga!

Deixo aqui expressos os meus votos de boa sorte para o Sporting de Braga e a minha expectativa que venha para o Minho a taça do vencedor da 2ª edição da Liga Europa. Força, Braga!

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Da vontade em bater com a cabeça na parede

Os debates entre os candidatos às eleições legislativas entram agora na recta final. A pré-campanha está prestes a dar lugar à campanha eleitoral. O momento de decisão aproxima-se – as eleições são daqui a 3 semanas, aproximadamente. E nesta altura, o mais provável continua a ser um empate entre PS e PSD, um cenário onde cada voto conta.

Não consigo deixar de professar genuíno e autêntico espanto pelo facto de José Sócrates continuar a ter reais possibilidades de vencer as eleições de dia 5. O homem responsável pelo estado catatónico das contas públicas, pela concessão da administração efectiva do país a terceiros, um dos piores governantes do Mundo Ocidental ainda tem possibilidades reais de acordar no dia 6 de Junho e ainda ser primeiro-ministro.

De pouco parece valer a opinião de figuras internacionais que, para ser simpático, consideram Sócrates um troca-tintas, alguém a quem não se pode dar crédito e em quem não se pode confiar. Ainda assim, continua a haver pessoas que acreditam mesmo que a culpa de tudo isto é dos estrangeiros, dos capitalistas americanos e europeus e que Portugal ainda existe porque Sócrates está lá para segurar o país.

Pedro Passos Coelho tem de ser um político bastante mau para não conseguir capitalizar sobre a situação do país. Com o desemprego nos 11% – e com expectativas de vir a ser de 13% em dois anos –, o país a ser obrigado a pedir ajuda externa, com o pacote de medidas pesadíssimo que este governo assinou, o PSD não só não tem a vitória garantida como nesta altura a maioria absoluta é uma miragem. Será que a campanha eleitoral vai ser o ponto de partida para a vitória laranja?

Quem está a retirar alguns ganhos disto é Paulo Portas que está a reforçar a posição do CDS no tabuleiro político e parece hoje evidente que o CDS fará parte do próximo governo, liderado por laranjas ou rosas. Os seus 10%-12% garantem isso mesmo, ficando apenas a dúvida sobre se o Executivo será liderado pelo PSD e sem PS, ou pelo PS com o PSD.

Na sua actualização semanal, a sondagem Público/TVI volta a colocar o PSD na frente (na sexta-feira era o PS que surgia à frente nas intenções de voto) mas com uma margem tão pequena que o correcto será dizer que os dois grandes partidos estão empatados: 36,1% para o PSD, 35,4% para o PS. Com 12,6% surge o CDS que neste cenário, mesmo assim, não contribui para a maioria parlamentar de qualquer coligação de dois partidos.

A partir desta sondagem, e fazendo fé nos intervalos de confiança da mesma, todos os cenários continuam abertos. Maioria PSD+CDS, PS+CDS e PSD+PS+CDS e ainda bem que ninguém se lembra de uma quarta hipótese: PS+BE+CDU.

Contudo aquilo que me continua a surpreender é o facto de esta eleição ainda continuar em aberto e não estarmos apenas a discutir questões formais como qual o laranjinha que vai para as finanças e o azulinho que vai para a agricultura. Naquelas que, no papel, são as mais importantes eleições dos últimos anos, o português continua a evidenciar uma preocupante vontade em continuar a bater com a cabeça na parede. E talvez os problemas estejam mesmo aí: de tanta vez que a cabeça já bateu no cimento, perdeu noção do razoável e do racional.

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O perigoso destino de Sócrates

A pré-campanha eleitoral e as várias sondagens que têm sido publicadas pelos diferentes média parecem mostrar algo impensável há um mês atrás: um empate técnico entre Sócrates e Passos Coelho, entre PS e PSD.

Se as sondagens valem o que valem, a verdade é que tudo isto não deixa de ser estranho. Analisando a sondagem de ontem do Público e da TVI, o PSD surge na frente com 36,2% e o PS está logo a seguir com 35,1%. Com estes valores dentro da margem de erro, o que isto quer dizer é que nesta altura os dois partidos estão empatados.

Mais, para uma maioria de centro-direita no próximo Parlamento parece que o mais determinante será a votação do CDS, pois com o PSD a cair aos poucos e o CDS a subir de timidamente, a maioria de direita começa a ficar cada vez mais difícil – e, por isso, mais dependente de Portas.

Claramente, esta era uma eleição que dependia inteiramente de Passos Coelho. Motivado pelas sondagens de Janeiro e Fevereiro, que lhe davam a maioria absoluta, precipitou a queda do Governo minoritário. Contudo, a sua imaturidade levou-o a desbaratar a vantagem conquistada, perdendo terreno para um hábil Sócrates que lhe passou o ónus da responsabilidade pela crise política e económica.

José Sócrates é um hábil e talentoso político, com o dom da palavra e jeito para o sound-bite. Mais, repetindo sempre a mesma cassete, vai conseguindo levar água ao seu moinho, desculpando os desastres destes últimos seis anos com a crise internacional, o PSD e, por vezes, o Presidente da República.

Aquilo que estranha no meio de tudo isto é haver eleitor que ainda considere votar em Sócrates. É hoje inegável que o Governo respondeu mal à crise, despejando dinheiro sobre activos incapazes de gerar rendimento – veja-se o BPN, por exemplo, mas também as várias empresas dos sectores têxtil e das cablagens que receberam dinheiro do Estado mas fecharam as portas na mesma – e sem soluções para os desafios que se colocavam ao crescimento da economia nacional.

Depois disso, demorou a entender a inevitabilidade do pedido de ajuda externo, irresponsavelmente autorizando o país a comprar dinheiro cada vez mais caro até ao ponto de ruptura. Os sucessivos PECs e as adendas aos mesmos foram apenas episódios que ajudaram a intensificar o aspecto circense da situação.

O país está pior hoje do que estava há dois e seis anos atrás (momentos das vitórias de Sócrates). Há mais desemprego, pior serviço de saúde, mais incerteza na Segurança Social, mais instabilidade na educação, pior justiça e um clima de derrota que apenas vem adensar o efeito quase cataclísmico que o memorando entre o FMI e o Governo teve sobre a população.

E mesmo assim, o responsável máximo por tudo isto está claramente na luta pela vitória final. Com maior ou menor folga, o PS deve alcançar uma votação na próxima eleição que, no mínimo, o manterá como força bastante relevante na AR e, possivelmente, no Governo. Coelho e Portas dizem que não governam com Sócrates. Irrelevante. Pelo andar da carruagem, é bem capaz de ter de ser Sócrates a dizer se aceita formar governo com PSD e CDS.

Volto a confessar a minha incredulidade em ver que, perante tudo aquilo que tem passado, depois de ontem Wolfgang Münchau ter classificado de “apavorante” a gestão da crise feita por Portugal, de ter criticado duramente o facto de Portugal ter esperado pelo último minuto para pedir ajuda, de dar a entender que Sócrates só poderia estar totalmente alheado da realidade quando disse que o acordo com o FMI era bom para o país quando o mesmo inclui “cortes selvagens” de despesa, e prevê dois anos de recessão “profunda”, uma percentagem ainda significativa do eleitorado considere seriamente a hipótese de entregar novamente as chaves da governação a Sócrates.

Paul Krugman escreve hoje no NY Times que uma das incongruências do ataque à recessão global é ainda nenhum responsável político ter sido culpado pelo que aconteceu. Vai mais longe e refere que é uma total hipocrisia ver que aqueles que hoje falam em apertar o cinto e em fazer poupança eram os mesmos que aprovavam cortes fiscais para os mais ricos, dizendo mesmo que nada iremos aprender com esta crise se aqueles que a causaram continuarem a tomar todas as decisões.

No seu artigo no Financial Times, Wolfgang Münchau escreveu que com líderes como Sócrates não se pode dirigir uma união monetária.

Mesmo assim, Sócrates continua a ter fortes possibilidades de sair vencedor do combate de 5 de Junho. É corrente dizer-se que cada país tem o Governo que merece. Se ao fim de 6 anos de trapalhadas os eleitores portugueses voltarem a colocar Sócrates em São Bento, então se calhar merecemos todos a miséria e a desgraça em que o país vai viver.

E temos ainda o “problema” de ver a esquerda unida com mais votos que a direita. Ainda bem que nem Jerónimo, nem Louçã têm qualquer vontade em governar o país.

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União a sério

O Dicionário Priberam define o substantivo feminino “união” como “conformidade de esforços ou pensamentos”, “concórdia”, “aliança” ou “confederação”. Estes são apenas alguns exemplos de uma lista de 11 entradas.

Ora, pegando no espírito dessa definição ficamos a perceber que uma união pressupõe alguma compartilha de valores, ideias e o empenho em preservar os mesmos ideais. A concórdia aqui em causa sublinha a vontade de todos os participantes em zelarem pelo bem-estar uns dos outros, tal como na criação de condições para que todos tenham acesso à felicidade e à prosperidade.

Para além disso, essa união deve estar organizada de modo a responsabilizar todos os membros e atribuir a cada um, e de forma proporcional e equitativa, as tarefas entendidas como necessárias para o grupo alcançar o estado de desenvolvimento máximo. No caso de uma união com interesses políticos, é recomendável que os integrantes desse conjunto tenham uma cartilha comum, uma visão política, social e civilizacional comum. Mais, a solidariedade e a harmonia devem estar presentes e servir de fundação a todas as decisões.

Vem tudo isto a propósito da União Europeia e do desafio que enfrenta neste momento. A ligação económica entre vários países teve bons resultados no período em que cada país-membro tinha a sua moeda e aquando da instauração do euro os frutos da união económica continuaram a cair da grande árvore europeia – pelo menos para os países mais fortes. Contudo, ao primeiro forte abanão a raiz dessa árvore parece ter saído danificada e cresceram fortes desavenças e perturbações que muitos julgavam inquebrável.

Assentemos o seguinte: não há qualquer tipo de missão de solidariedade entre Estados-membros da União Europeia. Desde os tempos do pós-guerra que a união era vista como uma forma de retirar ganhos económicos e financeiros de uma situação de partilha de um mesmo mercado. Os sucessivos alargamentos apenas iam aumentando o mercado potencial dos países mais fortes e expondo os mais fracos a novos padrões de consumo e de estilo de vida. Ao fim e ao cabo, todos os países acabavam por ganhar porque estavam a fazer (ou a ter acesso a) mais dinheiro.

No entanto, o medo de perder a soberania nacional levou a que nenhum Estado-membro tenha alguma vez sugerido a criação de um governo Europeu, uma instituição com claras competências legislativas no espaço comunitário. Pior, nem com a criação de uma moeda comum se decidiu embarcar rumo a uma (verdadeira) política económica comum.

Claro que havia alguma regulação mas como se viu pela fraude Grega, tudo isso era apenas smokes and mirrors. Na realidade, os países governavam e geriam os fundos comunitários como queriam, negociavam a sua dívida como queriam e irresponsavelmente iam direccionando os seus países – e a Europa, por arrasto – para uma situação de falência financeira e social.

Esta semana, os ministros das finanças da zona euro discutiram a eventual renegociação da dívida grega, quais os impactos da mesma e que soluções devem ser assumidas para resolver o problema grego. Na Grécia, altos responsáveis já começaram a atirar para o ar a possibilidade de deixarem o euro. Em Portugal, como bem sabemos, várias vozes têm sugerido o mesmo. A Europa treme.

A saída de um único país da zona euro significaria o início do fim do projecto europeu, tal como o conhecemos. A moeda falharia claramente e as dívidas dos países europeus passariam a valer zero – pelo menos a dos países fracos – o que acabaria na falência de bancos e num sem-fim de problemas sociais.

Naturalmente, ninguém vai deixar o euro nem a moeda acabará – a divisa continua bastante forte. Mas o simples facto de alguns dos integrantes falarem do assunto leva-nos a discutir a real força da União Europeia.

Não tenhamos dúvidas nem ilusões: a crise que se vive na Europa é sobretudo política. Falta de liderança, coragem e arrojo conduziram a Europa para esta situação. Políticos em vez de estadistas, personalidades sem sentido de “Europa” e mais preocupados em zelar pelo voto doméstico conduziram os destinos do continente nos últimos anos e a sua falta de argumentos, a incapacidade de resposta é apenas o sinal mais evidente da falta de qualidade dos políticos por toda a Europa.

Hoje assinala-se o Dia da Europa. Os líderes europeus deveriam então aproveitar este dia para repensarem o modelo de desenvolvimento que adoptaram para o continente, avaliar os resultados que esta adulterada união tem promovido e pensar se de facto aquilo que move as nações é um desejo superior de integração ou apenas a vontade de melhorar as coisas em casa.

E isto porque se a vontade dos países não é caminhar rumo a uma maior e mais perfeita união política, económica e social, então de pouco ou nada vale discutir a Europa e o seu papel no mundo. Assumamos que se trata apenas de um mercado comercial onde os membros têm privilégios e regalias sobre a concorrência extra-continental.

De nada valerá lutar pela preservação de uma União que se encontra irremediavelmente desunida. Para a União Europeia sobreviver e prosperar precisará de se unir a sério, de adoptar a tal “conformidade de esforços ou pensamentos” e viver em aliança e confederação. A saída para a União Europeia é uma união a sério. O resultado de uniões a brincar é este.

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Quanto vale uma época de sucesso?

Com a derrota de ontem em Braga, o Benfica falhou o quinto objectivo da época. Depois de ter perdido a Supertaça em Agosto, falhado a continuidade na Liga dos Campeões, perdido o campeonato em casa e desperdiçado a oportunidade de disputar a final da Taça de Portugal, os comandados de Jesus falharam a qualificação para a final da Liga Europa, a única competição que poderia ainda camuflar o falhanço redondo em que esta época se tornou.

A conquista da Taça da Liga é muito pouco para salvar uma época que dirigentes, treinadores e jogadores prometeram que seria ainda melhor que a anterior, marcada pelo crescimento qualitativo das exibições do Benfica, pela conquista do Campeonato e da Taçada Liga, e reafirmação internacional do clube. Esta seria a época para reforçar esses ganhos, conquistando mais provas internas e solidificando a posição do Benfica enquanto cliente regular da Liga dos Campeões.

Contudo, nada disto aconteceu. Em retrospectiva, as metas estavam claramente altas demais. E estavam altas porque a liderar o processo estavam pessoas sem hábitos nem cultura de vitória. Desde logo o treinador Jorge Jesus que, até à chegar ao Benfica, não tinha nenhum título relevante no seu currículo. Se em 2009/2010 mostrava ser um treinador com sede de ganhar, em 2010/2011 tornou-se num treinador mais acomodado, sem criatividade no banco e capacidade de improviso. Pior, não levou os adversários a sério e deixou-se surpreender. E se o FC Porto de Villas Boas surpreendeu toda a gente na final da Supertaça em Agosto, nos confrontos para o campeonato e taça Jesus devia saber ao que ia.

A época parece ter sido mal pensada desde o início. As saídas de Di Maria e Ramires não foram devidamente colmatadas, principalmente a do internacional brasileiro. David Luiz ficou a contra-gosto no plantel. O real desafio que a revalidação do campeonato ia representar foi mal medido, não levando a sério a ameaça real que o FC Porto reforçado com João Moutinho iria representar.

A ligeireza com que a temporada foi sendo pensada viu-se pelo atraso no início da preparação, pelas férias concedidas aos atletas que estiveram no Mundial, pela forma como a equipa abordou os jogos de preparação, pela ausência de opções de qualidade no plantel e pela forma pouco séria como os jogadores discutiam as probabilidades de não serem bi-campeões. Se a isto juntarmos a renovação de Jesus, uma novela que se arrastou algumas semanas perante o perigo do roubo azul-e-branco (e cada vez mais me convenço que tudo não passou de uma estratégia de Pinto da Costa para quebrar a confiança entre Vieira e Jesus e desestabilizar o ambiente na Luz) mais facilmente podemos entender como esta época não poderia resultar em muito mais do que aquilo que foi.

Os problemas e deficiências registadas em Julho foram tendo reflexos ao longo de toda a temporada. A equipa que corria mais do que os adversários, que controlava a bola, que criava 10, 15 oportunidades de golo por jogo, que assustava os rivais, tinha desaparecido para dar lugar a 11 fidalgos que julgavam que o simples peso da camisola seria suficiente para garantir as vitórias necessárias. Ora, os primeiros 5 jogos oficiais da época mostraram que a raça e o querer da temporada passada tinham sido substituídas pela passividade e indiferença.

Os reforços tardaram em fazer a diferença e a equipa deixou uma pálida imagem na Liga dos Campeões (4 derrotas em 6 jogos, destacando-se a derrota em Israel por 3-0 como das mais embaraçosas dos últimos tempos). As 20 vitórias consecutivas e a aparente melhoria exibicional assentaram na subida de forma de alguns jogadores (como Gaitán, Salvio e Aimar) e numa sequência de jogos de grau de dificuldade reduzido (tirando a vitória no Dragão para a taça, no pior momento do FC Porto em toda a época). Essas vitórias camuflaram algumas dificuldades e limitações do plantel que vieram ao de cima na primeira contrariedade: em Braga, claro está, a equipa perdeu por 2-1, disse adeus de vez ao título e mostrou o quão frágil era a força que vinha demonstrando.

Se olharmos para o plantel do Benfica, não há flanqueadores (havia Salvio e depois desse não sobrou ninguém), não há alternativa a Maxi na direita, não há central para o lugar de David Luiz (Sidnei caiu em desgraça e não o souberam recuperar) e, mais do que isso, não há um plano b. Jesus joga no seu 4-1-3-2 e parece não saber mais. Ao contrário do treinador activo e dinâmico da época passada, este ano Jesus pareceu sempre letárgico no banco, desmoralizado, sem capacidade de reacção e assombrado pelos desafios à sua frente. O seu baquear constante nos grandes jogos, em geral, e perante Villas Boas e Domingos, em particular, é disso mesmo prova.

Claro que Jesus não é o único responsável. Aliás, nem seria justo crucificar o homem a quem atribuíram todos os méritos pela conquista do título em 2010. Contudo, não pode ser isento de várias responsabilidades, principalmente quando todas as contratações tiveram o seu aval e teve a liberdade e autonomia necessárias para gerir o plantel a seu bel-prazer.

A direcção tem também várias responsabilidades e será a sua capacidade de análise e reflexão sobre o que correu mal esta época que irá determinar os eventuais sucessos da próxima. Como LFV e Rui Costa gerirem esta situação terá um grande impacto na forma como o Benfica vai entrar na próxima época.

Jesus vive com o crédito adquirido na época anterior. Mas nem isso lhe aguentará uma nova temporada igual a esta, onde a incapacidade para competir com o FC Porto ficou evidente demasiado cedo. Instituir uma cultura de vitória só é possível ganhando, e ganhando muitas vezes. Acredito que Jesus fique na próxima temporada e tenha a oportunidade final para mostrar aquilo que realmente vale. Uma prova dos nove. E essa demonstração começa já este fim-de-semana com a forma como a equipa abordar o que resta da temporada, e prolongar-se-á durante o defeso e a pré-temporada. A base das conquistas constrói-se em Julho. Aguardemos para ver que tipo de Benfica teremos nessa altura.

Parabéns ao Braga. Feito notável e com um impacto real para o clube, a cidade e a região.

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Wanted Dead. Not alive.

O fugitivo mais procurado do Mundo foi encontrado. Escondido numa luxuosa mansão nos arredores de Islamabad, a capital do Paquistão, o líder e fundador da Al-Qaeda Osama Bin-Laden foi assassinado por uma equipa composta por um número reduzido de militares e operacionais norte-americanos.

Quase a completar uma década sobre os ataques às Torres Gémeas em Nova Iorque, os EUA finalmente apanharam o cabecilha da organização que tem vindo a desmantelar desde as invasões do Afeganistão e do Iraque.

Acaba por ser um feito mais simbólico do que outra coisa. A verdade é que a Al-Qaeda já estava há muito a passar por dificuldades e vários foram os membros da organização que nos últimos anos foram capturados pelas autoridades ou, simplesmente, abandonaram a organização por terem deixado de concordar com as estratégia e o rumo seguido pelo topo da estrutura do grupo terrorista.

Mas também porque nos últimos anos têm aparecido várias pequenas Al-Qaedas, eventualmente mais perigosas que a original pois aparentam ser ainda mais radicais e extremistas.

Mas se o seu poder absoluto nos dias de hoje poderia ser bastante reduzido, não deixa de ser verdade que Bin Laden continuava a ser um importante símbolo para aqueles que acreditam que o Ocidente é o temível opressor e eles os defensores da palavra e vontade de Deus. A sua decisão de atacar os Estados Unidos onde poderia causar mais estragos (para lá das Torres Gémeas em Nova Iorque, o plano inicial previa a destruição do Pentágono, da Casa Branca e da casa de férias do presidente em Camp David) incentivou e encorajou vários extremistas muçulmanos a juntarem-se à derradeira jihad.

Portanto, o simbolismo neste caso é bastante importante e faz toda a diferença. Derrubar o líder é sempre vital para vencer qualquer confronto bélico. A questão agora passa por perceber se as forças que se opõem ao terrorismo se vão deixar levar pela euforia do momento e entrar num estado de certa complacência ou se irão aproveitar este momento de eventual desorganização da Al-Qaeda para desferir ainda mais golpes cirúrgicos e fatais ao terrorismo no mundo islâmico.

Os próximos meses e as próximas etapas serão vitais para perceber as consequências deste feito. Será interessante olhar para a presença militar norte-americana no Afeganistão e no Iraque e ver se existe alguma alteração no paradigma, e eventuais movimentos na Síria, Irão e, claro, no Paquistão.

Em 2001, o então Presidente dos EUA George W. Bush disse que Osama Bin Laden era procurado “morto ou vivo”. Fazendo fé nas declarações de um responsável da Casa Branca, o plano ontem nunca foi o de capturar Bin Laden vivo. O líder da Al-Qaeda tinha de morrer ontem. Veremos se morto Bin Laden ainda poderá provocar tantos ou mais estragos que vivo.

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